Um anjo em defesa da democracia

Morreu há pouco mais de um mês uma mulher cuja história de luta deveria servir de exemplo para todos os brasileiros que estão nas ruas exercendo a construção da democracia.
Na imprensa, houve uma nota aqui, outra acolá, mas, infelizmente, foi perda majoritariamente ignorada pela opinião pública que hoje verbaliza a indignação com os rumos do país.
Therezinha de Jesus Zerbini foi uma dessas heroínas quase anônimas da história brasileira. Mulher do general Euryales de Jesus Zerbini, viu o marido ser expulso das Forças Armadas e ser perseguido pela ditadura em 1964.
Tudo porque o comandante da 12ª Brigada de Infantaria Leve de Caçapava se recusou a apoiar o golpe e defendeu a legalidade do governo e do regime democrático.
Ela foi arrimo moral de Zerbini quando este foi trancafiado pelos militares.
Depois, virou alvo do regime de exceção por ter ajudado a viabilizar sítio para congresso da UNE em Ibiúna.
Acabou na prisão ao lado de Dilma Rousseff.
Com o advento do debate sobre a anistia política, Therezinha exerceu momentos de protagonismo político. Liderou manifestações em favor da anistia e lutou pela igualdade de direitos das mulheres. Nas Diretas Já, era figura carimbada nos palanques ao lado de Ulysses, FHC, Brizola e Lula.
O tempo passou, a redemocratização perdeu viço na memória coletiva do país e as diversas lutas de Therezinha caíram no esquecimento.
Tive a honra de entrevistar essa ex-enfermeira, a noviça que se apaixonou pelo comandante da Força Pública Paulista quando este caiu enfermo no início da década de 50.
Zerbini já havia feito seu tributo à legalidade em 32 e voltaria a fazê-lo em 64.
Neste momento em que milhares de brasileiros saem às ruas para questionar o governo, só espero que os exemplos de Therezinha e Euryales sirvam para alguma coisa.
Os piores momentos da história do Brasil derivaram do golpismo –e os paulistas deveriam particularmente se lembrar disso no próximo feriado de 9 de julho.
As forças que têm saído às ruas para evocar fantasma dos militares não devem ser subestimadas. Mais do que isso: devem ser combatidas e responsabilizadas criminalmente, como outros países fazem com grupos terroristas ou xenófobos.
Therezinha não era militante comunista ou militante de grupos radicais. O que a moveu, durante décadas, foi compromisso com a verdade e com as instituições democráticas.
Num país de proverbial memória curta, é difícil para muita gente que está nas ruas compreender como obscurantismo dos anos de arbítrio colaborou para fragilizar nossas instituições e facilitar vida de tantos que vivem, desde então, à sombra do poder.
Sempre é bom lembrar que os corruptores de hoje são os mesmos de ontem, aqueles privilegiados com obras messiânicas dos militares.
O bom senso é matéria escassa no Brasil de hoje. Por isso, só me resta evocar o espírito libertário e democrático de Therezinha Zerbini para que ela nos ilumine nesse momento tão delicado da história do país.

Debandada
Congresso debate brechas na lei eleitoral para permitir a debandada de prefeitos do PT candidatos à reeleição. Carlinhos Almeida, por ora, não se enquadra entre dissidentes

Tiro no pé
O secretário de Saúde, Paulo Roitberg, criou nova situação embaraçosa para Carlinhos com contratação de sua mulher por uma OS. Mas continua na lista dos ‘intocáveis’

Últimos que morrem
O Congresso Nacional do PT é considerado pelas alas mais à esquerda como limite para redefinição de rumos da legenda e troca do grupo dirigente. Ilusão não tem fim?

O governo Carlinhos e a sombra de Angela

Quem fez melhor governo: Angela Guadagnin ou Carlinhos Almeida?
A pergunta pode incomodar muitos petistas, mas já está em debate em São José, a menos de dois anos do fim da segunda passagem do PT pela prefeitura. E resposta não é favorável a Carlinhos, nem mesmo entre ferrenhos opositores do petismo.
Não é simples comparar as duas gestões do PT, separadas por intervalo de 16 anos. Mas roteiro-chave para compreender por que o governo Angela pode ter sido melhor que o de Carlinhos começa pelas finanças.
Angela herdou prefeitura praticamente falida, sem dinheiro nem para pagar em dia o funcionalismo. O orçamento votado pela Câmara no ano anterior não previa verbas básicas de custeio e mais de 60% da receita estava comprometida com folha de pagamento. Com situação tão crítica, Angela enfrentou muitas dificuldades iniciais no relacionamento com o funcionalismo. Uma greve chegou a ser reprimida pela Guarda Municipal. Ao final do mandato, no entanto, a gestão petista havia instituído o gatilho salarial que perdura até hoje e tem garantido a reposição das perdas inflacionárias dos servidores.
O mais importante foi a recuperação da capacidade de investimentos da prefeitura e reequilíbrio das finanças.
Após dois anos, a gestão deu início a projetos estruturantes, como a retomada das obras do Anel Viário e a construção do Hospital Municipal. O tripé obras viárias-saúde-educação foi complementado pela reestruturação completa da Fundhas. No final do governo, mesmo transferindo a fatura para o seu sucessor, Angela fez novo movimento ousado, desapropriando a área que se transformou no Parque da Cidade.
E o governo Carlinhos, quais serão as suas “marcas” no final de 2016?
Se considerarmos as finanças, a situação é de retrocesso absoluto. O petista herdou prefeitura com orçamento relativamente equilibrado e com respeito aos limites fixados pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Entre 2014 e 2015, o esforço de mais de 20 anos esvaiu-se e Carlinhos afrouxou controle das finanças. Talvez seu governo tenha subestimado dimensão da crise econômica ou planejado mal investimentos. O fato é que a imprevidência obriga prefeitura a caminhar a passos de tartaruga este ano e não se sabe se cenário vai mudar em 2016.
E o que dizer então dos projetos estruturantes? A fantasia do BRT não resistiu mais que dois anos. A informatização das escolas foi ofuscada pelo escândalo dos kits. A Saúde não consegue cuidar nem da dengue. O governo parece ter entrado no estágio do “piloto automático”. Seus assessores políticos gabam-se de ter reconquistado maioria na Câmara, sem ter percebido que o governo perdeu há muito tempo batalha da opinião pública.
O que Angela e Carlinhos têm em comum? Acima de tudo, a incapacidade de cuidar da zeladoria da cidade, menosprezando mesmos os mais elementares serviços de manutenção. Para Carlinhos, deve ser preocupante imaginar que seu governo já passou a ser comparado com o de Angela, com larga vantagem para a ex-prefeita.

 

Errar não é humano?
Que pergunta você faria a Dilma Rousseff? A maioria certamente iria questioná-la sobre o petrolão. Eu seria um pouco mais filosófico: presidente, a senhora alguma vez já admitiu francamente algum erro na vida pública?

Mais do mesmo
O novo ministro chefe da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, integra a linha dura do PT e defende o controle dos meios de comunicação. Parte do governo parece apostar deliberadamente no confronto.

Tiro no pé
O “distritão” defendido pelo PMDB pode enfraquecer ainda mais o papel dos partidos e perpetuar no Congresso os mesmos caciques que cuidaram de avacalhar a imagem do Legislativo nas últimas décadas.

A maldição do vice-prefeito

O rompimento público do vice-prefeito Itamar Coppio completa o inferno astral de Carlinhos Almeida (PT). O prefeito não tem mais ao seu lado aquele que foi seu braço direito nas últimas duas disputas pela prefeitura e recebeu de Carlinhos mais carinho e atenção do que todos os outros vices da história recente de São José.
Em nome da aliança com Itamar, Carlinhos ignorou a tentativa do vereador Wagner Balieiro (PT) de viabilizar uma candidatura a deputado estadual. Em nome da aliança, admitiu no governo gente sem preparo técnico, adulada com cargos de confiança apenas por serem apadrinhados pelo PMDB.
Itamar não é, com certeza, o Renan Calheiros de São José. Há outras figuras com perfil de raposa mais acentuado. Mas a história sinaliza: Itamar gostaria de ser o Renan de São José.
Ele namorou os tucanos por um longo tempo e chegou até a anunciar um acordo eleitoral com o PSDB quando foi lançado o nome de Eduardo Cury a prefeito. Já se considerava o novo secretário de Saúde. Exagerou na sede ao pote e foi descartado.
Veio o namoro com Carlinhos e a promessa de casamento duradouro. Quando Carlinhos ganhou a eleição, a dupla parecia inseparável. O prefeito cuidou de providenciar um aumento generoso ao vice, deu à sua mulher o comando do Fundo de Solidariedade e encastelou no governo figuras chaves do PMDB. Itamar ajudou o governo a driblar crises políticas e intermediou a aproximação com hospitais filantrópicos. No esportes, comandou a operação que levou uma OS a assumir o comando do basquete.
Mas ele queria mais. Queria influenciar mais na Saúde, setor onde jamais conseguiu fazer sombra ao aparelho montado por Paulo Roitberg. Itamar queria, sobretudo, adquirir um protagonismo político que os vices de São José só conquistaram ao romper com os prefeitos ou herdarem administrações em tempos de crise.
Foi assim com Pedro Yves, depois da turbulenta renúncia de Joaquim Bevilacqua. Foi assim com Edmundo Carvalho, paladino da ética depois de romper com Angela Guadagnin. Teria sido assim com Ednardo de Paula Santos não fosse a habilidade de Emanuel Fernandes em varrer para debaixo do tapete as desavenças. Que vice não deu trabalho? Talvez só Riugi Kojima. O último, Luiz Antonio Ângelo da Silva, só criou problemas para Cury no final do governo, mas o convívio não foi dos mais pacíficos.
A maldição do vice atinge Carlinhos. O que ele fará com os cargos oferecidos ao PMDB? Se reivindicá-los, aprofunda o rompimento com Itamar. Se mantê-los, vai adotar uma política de dois pesos e duas medidas que pode complicar sua relação com a Câmara.
O vice diz que decidiu abandonar o barco porque vê o navio fazendo água. Por mais que o governo tenha dificuldades, não parece postura louvável. Como um imediato justificaria a decisão de abandonar o navio e seu comandante ao perceber a embarcação adernando?
A maldição do vice é o assunto do momento em São José, mas não é apenas ameaça local. E se Michel Temer anunciasse o rompimento com Dilma às vésperas de 15 de março?

Fator Alckmin
A chave para o afastamento de Itamar Coppio (PMDB) pode ser no Palácio dos Bandeirantes. Suplente, ele conta com a ajuda de Alckmin para assumir vaga na Assembleia

Missão impossível?
Persistente, o presidente do DEM, Jorley Amaral assumiu a tarefa de reaglutinar a base de Carlinhos Almeida (PT) na Câmara. Os primeiros frutos já estão sendo colhidos

Guinada tucana
Em Taubaté, o alinhamento informal de Pollyana Gama com o PSDB pode render frutos. Ela já é primeira suplente do PPS na Câmara e acredita que pode assumir vaga em Brasília

Um prefeito em seu labirinto

Um amigo ficou surpreso com a nomeação de Sérgio Werneck para comandar a Secretaria de Defesa do Cidadão em São José. “Como assim? Um tucano no secretariado do Carlinhos?”
Werneck é advogado experiente, com relevantes serviços prestados à cidade no comando do Procon. Quando Carlinhos assumiu, uma das primeiras providências foi esvaziar poder de Werneck. Depois, no ziguezague que virou marca do proselitismo petista em São José, Werneck virou assessor da presidente da Câmara, Amélia Naomi, iniciando processo de aproximação com PT.
A incapacidade de Carlinhos de oxigenar sua administração com novos nomes faz o governo andar em círculos. O secretariado passou por inúmeras mudanças e nada de significativo aconteceu. Os nomes que dão as cartas ao lado do prefeito são os mesmos. Os responsáveis pelas áreas onde governo enfrenta maior desgaste continuam ‘empoderados’. A fragilidade da gestão se expressa, de forma mais veemente, na coordenação política do governo. Depois da humilhante derrota na disputa pelo comando da Câmara, era de se supor que Carlinhos apostasse em novos interlocutores com Legislativo e investisse no diálogo direto e na reaproximação com população. Em vez disso, continua tratando administração como se fosse a extensão e prolongamento do seu antigo gabinete de deputado, com os mesmos assessores que, durante tantos anos, lhe serviram fielmente.
Neste cenário, a nomeação de Sérgio Werneck para a Secretaria de Defesa do Cidadão é o reflexo de governo que fala cada vez mais para si mesmo, com um prefeito sempre na defensiva, incapaz de transmitir confiança e de agregar novos valores à administração.
Em novembro de 2014, Carlinhos reuniu diretório do PT e pediu paciência aos militantes. Disse que avaliação negativa da administração era coisa passageira e que todos os prefeitos enfrentaram essa dificuldade nos dois primeiros anos. O tempo passou, veio um novo ano e a percepção negativa da administração só fez se acentuar. Com maioria da militância pendurada no cabide da prefeitura, é líquido e certo que Carlinhos vai conseguir renovar internamente voto de confiança na administração. Mas o pessimismo é crescente: mesmo alguns dos mais ardorosos defensores do petista avaliam que barco está à deriva e que seu comandante não sabe mais a quem recorrer.
Com o governo acuado, a oposição já celebra antecipadamente o triunfo em 2016. No PSDB, há quem desconsidere candidatura natural de Eduardo Cury e aposte no presidente do partido, Anderson Farias, ou na retomada da indicação de Alexandre Blanco. Para reeleição, Carlinhos terá que se ver ainda com a possibilidade de enfrentar terceira via, gestada e alimentada pela incapacidade de seus coordenadores políticos.
Na época em que Angela foi prefeita, a gente costumava brincar, nas redações, que a prefeita estava presa no labirinto do 7º andar do Paço, cheio de divisórias e de assessores que pensavam mandar mais que a prefeita. Vinte anos depois, as divisórias caíram, mas o labirinto invisível do Paço fez mais um prisioneiro.

Brasil profundo
A eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara transformou em pó a onda libertária das manifestações de junho de 2013. Foi um tributo do Congresso ao que o país tem de mais retrógrado

Manietado

Supostamente insatisfeito com o gatilho limitado a 5%, o Sindicato dos Servidores de São José promete para março uma “grande assembleia” para retomar a campanha salarial. É mais uma encenação

Média cultural
A Câmara de Taubaté vai abrir espaço para os artistas locais nos boletins e na TV Câmara. A proposta foi bombardeada pela assessoria jurídica da Casa por implicar gastos

Nosso futuro é a Groenlândia?

O momento do país é sombrio, economia em crise, aumento de impostos, inflação… A lógica da nova equipe econômica faz corar os discípulos de Pedro Malan. Calcula-se que a inflação vai bater recorde de dez anos por conta do novo imposto sobre a gasolina e da duplicação da alíquota de IOF. E a presidente Dilma Rousseff? Dizem que nem tomou posse para o segundo mandato: para muitos, quem estava na rampa do Planalto era uma dilma fake, uma versão sem graça da dilma bolada.
Meus amigos petistas estão perplexos. Meus amigos tucanos, idem. Os primeiros não sabem como defender as medidas do governo. Os segundos não querem, de jeito nenhum, admitir que esta também seria a agenda de Aécio. O argumento que lhes resta é o discurso do próprio Aécio para quem, com o PSDB no poder, o choque fiscal seria menos dramático, por conta da suposta credibilidade tucana junto ao mercado financeiro. Considero que o governo do sem-mandato Joaquim Levy é um acinte. Mesmo os tucanos mais empolgados com a desgraça petista deveriam questionar essa lógica perversa que obriga o país a cortar empregos e investimentos e aumentar impostos.
Ufa! Pior que o estresse político desse início de ano só mesmo o calor que nos assola e, como diz um amigo, reduz a pó nossa dignidade. Aqui no litoral, você pode tomar quatro banhos por dia e nada adianta. Sai da ducha de água fria (???) e, cinco minutos depois, já está encharcado de suor. Após duas décadas, redescobri o “verão senegalês” dos cariocas e fluminenses. Antigamente, a chuva era certa no final do dia. Agora, é uma pancada a cada cinco ou seis dias. De resto, sol a pino até as 20h e calor infernal que adentra a madrugada.
Em Paraty, onde moro hoje, este calor senegalês faz a alegria dos turistas, mas parece travar a cidade. Culpa-se o sol inclemente por tudo, da falta de água às panes frequentes no serviço de telefonia. As operadoras de telefonia celular recomendam que clientes retrocedam ao 2G porque torres de transmissão estão sendo afetadas pela onda de calor. A concessionária de energia elétrica se exime de culpa pelas panes quase diárias na distribuição de luz, mesmo sem nuvem no céu. Os Correios pedem mais prazo para realizar entregas.
Até os esportistas estão de birra com o sol e dizem que não conseguem mais praticar futevôlei na praia porque não há água que refresque a areia.
E tome fila na hora do “refresco”. Fila para comprar água, fila para tomar sorvete, fila para ducha na praia onde ainda corre um filete de água…
O verão senegalês é para os fortes. E fica pior quando você descobre que calor também interfere negativamente na rotina dos que trabalham à sua volta. Duas décadas depois, tudo é para depois de amanhã nas terras fluminenses. E o sol encurta os ponteiros do relógio. Ninguém trabalha antes das 10h. Com sol a pino, é criminoso permanecer no escritório depois das 17h.
Muita gente se aventura a trocar o estresse hídrico paulista pelo calor subsaariano. Eu, sinceramente, torço para que o ar-condicionado funcione à noite e fico sonhando com uma casinha na Groenlândia…

Escanteio
A vereadora Angela Guadagnin (PT) interveio e o secretário de Educação de São José, Célio Chaves, foi mantido no cargo. Pouco a pouco, no entanto, o Paço vem minando poder dele

Revoada
Depois de perder espaço na Câmara, o presidente do DEM, Jorley Amaral, articula a ida de afilhados políticos para cargos estratégicos no governo Carlinhos Almeida

Roto e esfarrapado
Depois de passar décadas ignorando a necessidade de despoluir o Guandu e de tripudiar o drama paulistano, o governo do Rio enfrenta agora a ameaça de racionamento de água. A revolta de São Pedro não poupa ninguém

Como driblar o pessimismo da xepa?

As 6.000 pessoas convocadas pelo PT para acompanhar a posse da presidente Dilma Rousseff para novo mandato emprestaram suas vozes para entoar refrões surrados em frente ao Palácio do Planalto, garantindo a cereja do bolo do cenário de fim de feira de um evento que deveria ser festivo.
É nesse clima de xepa que começamos o ano com um novo mandato do PT à frente do Palácio do Planalto.
Os ministros escolhidos por Dilma não deixam dúvidas sobre o destino melancólico do país: o filho de Jader Barbalho, o pastor da Universal que foi expulso do PFL, a latifundiária do Tocantins, o ex-ministro da banda podre do PMDB no governo FHC, o chefe dos aloprados, etc.
Tudo isso e mais o triunvirato à frente da política econômica não deixam dúvidas sobre o que nos aguarda nos próximos quatro anos.
A governabilidade de Dilma Rousseff desmonta os últimos pruridos ideológicos do PT e reproduz na Esplanada dos Ministérios a lógica dos coronelismo.
De norte a sul do país, nunca houve um ano novo com tantas previsões pessimistas. Em São Paulo, a crise hídrica não dá trégua. No Rio, a indústria petrolífera sinaliza demissões em massa com a crise da Petrobras. Em Minas, o novo governo assume sem dinheiro até para renovar os contratos dos radares nas estradas.
Como escapar do tsunami de pessimismo? Não dá para fingir que temos um governo sensato e competente em Brasília. Não dá para ignorar as nuvens negras que se aproximam com os desdobramentos da Lava-Jato, com a cassação de dezenas de deputados e senadores.
Mesmo assim, fiz um brinde ao ano novo acreditando que a energia positiva das mudanças iniciadas em junho de 2013 ganhem um novo fôlego em 2015. Pessoalmente, também espero que o novo ano multiplique os desafios e as oportunidades de conquistas.
Respeito quem apostou na reeleição de Dilma e quem votou na oposição. Acredito, no entanto, que precisamos de menos guerras partidárias e mais engajamento social –que cada um possa dar sua contribuição, mesmo que mínima, para um país mais justo.
Existe um país que dá certo. E ele não está nas estatísticas dos governos e nos projetos mirabolantes que os marqueteiros inventam para empacotar candidatos a cada período eleitoral. Este país diferente é conduzido por muito trabalho e por gestos de solidariedade que não estão na cartilha da maioria dos políticos, aqueles que afirmam estar na vida púbica para servir à população, mas que apenas se locupletam com o poder.
Em 2015, espero descobrir novas experiências deste tipo e acompanhar de perto esses projetos.
São iniciativas assim que nos dão a certeza de que vamos superar os percalços deste novo ano e retomar a confiança em nosso potencial como nação em busca de indicadores sociais mais civilizados.
Felizmente, este ano não teremos Copa nem aquela corrente para frente que nos leva, inapelavelmente, a um encontro marcado com o vexame.
Xô pessimismo! Que o ano de 2015 nos ajude a reencontrar nossa alegria!

Terceira via 1
O novo presidente da Câmara de São José, Shakespeare Carvalho, surpreendeu a todos com as indicações de Antonio Alwan e Claude Mary de Moura para cargos de confiança. E a articulação política do PT novamente levou um tombo

Terceira via 2
Shakespeare ganha status de “prefeiturável” em 2016. O PSB conta com apoio de vereadores ligados à Igreja Católica para comandar, no entanto, projeto da terceira via, seguindo a linha política adotada com a campanha de Marina Silva

Prestígio
O deputado federal Emanuel Fernandes pode ser chamado para atuar como assessor especial do governador

A rainha sem trono dos trópicos

A apresentação da nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff foi descrita por um articulista mais crítico como a posse da “Junta Econômica”. Trata-se de uma alusão às trincas de generais que assumiram o comando de diversos países da América Latina na segunda metade do século 20, após golpes militares.
A Junta Econômica de Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini não tem o poder de prender ou torturar adversários políticos. Em compensação, reduz a pó a autonomia da presidenta, transformada da noite para o dia em uma rainha sem trono dos trópicos.
Com a posse da Junta Econômica, a autonomia que Marina Silva prometia conferir ao Banco Central virou regalo de segunda linha oferecido ao mercado. Com Levy, Barbosa e Tombini, mesmo a opção antecipada de Aécio por Armínio Fraga ganha contornos de terapia de choque menos traumática.
A banca está satisfeitíssima com o Planalto. A perspectiva é de um longo período de juros elevados e de lucros escandalosos no mercado financeiro. Some-se a isso o torniquete nos investimentos e financiamentos públicos e os banqueiros receberão de volta os poderes plenipotenciários sobre o paraíso.
E a classe operária, onde fica nesta equação? As projeções são sombrias. Com crédito curto, o consumo vai ficar estagnado e a indústria não terá como recuperar o ritmo de produção. Resultado: demissões em massa. Com a ditadura da tesoura, a expansão e mesmo a manutenção de programas sociais correm sério risco.
Dilma foi eleita sem apresentar nenhum programa de governo. O que nenhum eleitor seu esperava é que a presidente adotasse e radicalizasse o programa dos adversários. Para a maioria deles, naturalmente, as consequências da posse da Junta Econômica ainda são insondáveis ou pouco palpáveis. Quando o remédio amargo começar a ser aplicado, no entanto, será impossível ignorar seu gosto travado.
Mesmo os petistas mais deslumbrados podem colocar as barbas de molho. No plano de ação da Junta Econômica, iniciativas como o PAC devem ir para o freezer, levando consigo todas obras pactuadas com os prefeitos e governadores alinhados com o Planalto. No caso de São José, existe ameaça real ao BRT, o único projeto estruturante idealizado pelo prefeito Carlinhos Almeida após dois anos de governo.
Haveria alternativa à trinca da tesoura? A reeleição em clima de xepa dificulta a análise e turva as avaliações. A economia do país não vai bem, mas um remédio excessivamente amargo pode matar o paciente ou representar novo retrocesso histórico.
Economistas alinhados à Junta Econômica passaram a defender publicamente, por exemplo, que é preciso aumentar o desemprego para reduzir pressão inflacionária do consumo. É choque neoliberal puro.
Diante de um cenário tão distante do ideário historicamente defendido pela presidente e do esvaziamento político do Palácio do Planalto, a pergunta central é a seguinte: será que Dilma vai conviver pacificamente com a Junta Econômica? Eu aposto que não.

Virou vexame
Como definir um governo sem rumo político? Aquele em que o líder do prefeito é eleito presidente da Câmara contra a vontade do Executivo e com os votos decisivos da oposição

Sobe e desce

Na eleição da Câmara, além de Carlinhos, maior derrotado foi o presidente do DEM, Jorley Amaral. No grupo vitorioso, a sombra de Shakespeare Carvalho é Walter Hayashi

Caldo de galinha
Em Taubaté, apesar de não morrer de amores por Digão, Ortiz Junior foi mais prudente e não embarcou na candidatura de Joffre Neto. Saiu da disputa com ares de vitorioso

O desenvolvimento acima de tudo

Acompanhei há alguns dias debate sobre candidatura de Paraty a patrimônio mundial da humanidade. O tema é polêmico no município. Por conta das regras impostas pelo Iphan, nenhum imóvel na cidade pode ter mais de dois pavimentos. Por conta dos decretos ambientais que se multiplicaram durante o regime militar, como contrapartida para a instalação de usinas nucleares vizinhas, 95% da área do município tem uso e acesso restritos.
A população de Paraty teme que o título de patrimônio mundial da humanidade torne estas restrições ainda mais rigorosas e trave o desenvolvimento do município. Hoje, as regras do Iphan e a escassez de áreas edificantes inviabilizam programas habitacionais. Tenho acompanhado de perto conflito surpreendente. De um lado, os defensores do ambicionado título de patrimônio mundial lembram que Paraty bateu na trave duas vezes e não levou. Agora, com a inclusão das áreas de preservação ambiental entre os sítios protegidos, suas chances aumentam. De outro, os moradores com raízes na cidade dizem que o título almejado ameaça futuro de um dos maiores patrimônios da cidade, que é cultura do povo caiçara, que vive nas regiões de costeiras, e a herança dos quilombolas.
Paraty tem me ensinado que as regras restritivas absolutas e verticalizadas, embora bem intencionadas, não promovem o desenvolvimento sustentável.
À distância, a experiência de Paraty ajuda a compreender, também, a esquizofrenia do debate sobre a instalação do WTC em São José. Entre 1997 e 2010, São José foi o município do desenvolvimento a qualquer preço. Esta foi a política adotada pelo PSDB para destravar economia do município e incentivar a expansão urbana e a construção civil. Este foi o embrião de equívocos irreparáveis, como a verticalização excessiva do Jardim Aquarius. Ali, até o início da década de 90, as únicas coisas que existiam eram pastagens e bois.
O ex-prefeito Eduardo Cury teve a coragem de acabar com o vale-tudo, mas foi malhado como Judas em sábado de aleluia. Moto contínuo, os mesmos vereadores que vestiram a carapuça de vilões ao transformar a Lei de Zoneamento anterior em uma colcha de retalhos viraram os paladinos do desenvolvimento, pregando a revogação da legislação aprovada por Cury. Por fim, a lei virou letra morta e insepulta.
Em Paraty, onde moro no momento, os olhos de todos se voltam para o passado, mas a cidade sufocada clama por alguma brecha para o desenvolvimento. Em São José, o passado pouco importa. O monstrengo do desenvolvimento se impõe a tudo e a todos. Se alguém promete gerar emprego e renda, todo investimento se torna justificável e toda a mudança na lei é razoável. Este é o cerne do debate sobre o WTC, projeto capitaneado por Ozires Silva, o “mago” do desenvolvimento joseense.
Quem está certo? É difícil avaliar. No Brasil, infelizmente, ainda estamos presos à “era dos extremos”. Então, fica o registro: na minha avaliação pessoal, nem mesmo força econômica de uma nova GM poderia minimizar o impacto da ocupação do último vazio urbano do saturado Aquarius.

Balança tucana
O placar está nove a nove. A disputa pela comando da Câmara de São José está empatado entre Shakespeare Carvalho (PRB) e Wagner Balieiro (PT). O fiel da balança, quem diria, será o PSDB.

Felipe Massa
Wagner Balieiro queimou a largada. Pouco antes de voltar à Câmara, excluiu vereadores influentes da base governista do debate sobre os investimentos do WTC.

Sucessão
A disputa pela Câmara de Taubaté passa pelo processo de cassação de mandato do prefeito Ortiz Junior (PSDB). Com Digão à frente, o tucano costura uma chapa que não seja ameaça adicional ao governo.

Dois recados das urnas para 2014

O Bolsa-Família, quem diria, virou o alvo do terceiro turno da eleição presidencial.
O mesmo programa que tem a paternidade reivindicada pelo PSDB e é objeto de um projeto de Aécio Neves para que seja transformado em política de Estado, é apontado pelos eleitores tucanos como o motivo de mais uma derrota na disputa pelo Palácio do Planalto.
Não faz muito sentido, não é mesmo? Só se levarmos em conta que o Bolsa-Família é apenas a ferramenta utilizada por parte da militância tucana para legitimar ideias bem mais retrógradas, como o preconceito contra nordestinos e pobres.
Este preconceito, esta necessidade de estabelecer uma divisão do país, busca legitimação política e social desde o 22 de abril de 1.500, quando Cabral desembarcou na Bahia e mandou vestir os índios. Não soubemos lidar com a diferença e, muitas vezes, não aceitamos que esta é uma medida essencial para a democracia. Cultivamos a ignorância como instrumento de dominação social e ficamos indignados quando os ‘ignorantes’ contrariam nossas vontades e trilham caminhos imprevistos.
Durante séculos, essa foi a régua da política tupiniquim. Que esta lógica tenha mudado um pouco, mesmo que milimetricamente, é natural que se transforme em fator de pânico para os herdeiros conscientes e inconscientes dos senhores de escravos. No terceiro turno da eleição presidencial, vale até exigir do TSE auditoria nas urnas eletrônicas. Afinal, quantos não disseram que nordestinos e pobres não sabiam votar e que este seria um fator favorável a Aécio?
Melhor, para os tucanos, seria seguir os conselhos do ex-presidente Fernando Henrique e tentar entender por que, mais uma vez, o partido só conseguiu falar para uma parte do Brasil. Tudo conspirava contra a reeleição de Dilma, a crise econômica, os escândalos da Petrobras, a fadiga de material petista. E, ainda assim, os tucanos bateram na trave.
Mais do mesmo?
No seu discurso da vitória, Dilma pregou o diálogo com a oposição, mas não citou, uma só vez, Aécio Neves. Fez apologia da militância petista e dos partidos aliados (?), elogiou até a mulher do vice-presidente, Michel Temer, mas pouco falou ao povo. Não houve nenhuma mensagem de agradecimento explícita e sincera aos 54,5 milhões de eleitores que garantiram ao PT mais quatro anos no Planalto. Não houve qualquer tributo à democracia brasileira, que deu nova prova de vitalidade. Por fim, a presidente reeleita atropelou mais uma vez o PMDB e o Congresso com uma proposta de plebiscito para a reforma política.
O novo governo Dilma começou como não terminou: excesso de autoconfiança, promessa de partilha de cargos na Esplanada dos Ministérios, conflitos diários com o PMDB e indefinição sobre a política econômica.
O bicho de sete cabeças do governo de coalizão impõe sua agenda e o PT vai se afastando cada vez mais das ruas. A eleição deste ano comprovou que o preço nas urnas para esta política do umbigo pode ser alto, especialmente se legenda continuar tangenciando a questão do combate à corrupção.

Reforma
Carlinhos ficou decepcionado com o envolvimento de vereadores aliados com a candidatura de Aécio. Foi aconselhado a não retaliar e vai ampliar o espaço dos aliados

Conflito
Pezão é pressionado a elevar o tom das críticas ao governo paulista por conta do projeto de retirada das águas da bacia do Paraíba. A represa do Funil, está próxima do volume morto

Favorito
Com o apoio de Ortiz Junior (PSDB), o vereador Rodrigo Luis Silva, o Digão, é apontado como ‘barbada’ na disputa para presidir a Câmara de Taubaté contra Jofre Neto

O que une Carlinhos e Ortiz Junior?

A derrota dos candidatos governistas em São José e Taubaté nas eleições deste ano deveria estimular uma reflexão sobre o uso da máquina nas campanhas políticas.
Nas duas maiores cidades do Vale, o esforço pessoal dos prefeitos e o apelo pelo engajamento dos cargos de confiança na campanha não resultaram em votos. A votação plebiscitária idealizada para avalizar as administrações do PT e do PSDB em São José e Taubaté, respectivamente, redundou em rejeição implícita da maioria da população aos governos.
Por mais que a conjuntura política e a avalanche antipetista tenham influenciado as urnas em São José, é impossível dissociar o desempenho pífio de Amélia Naomi (PT) e Itamar Coppio (PMDB) de um balanço do governo Carlinhos. Ambos transformaram a agenda do governo Carlinhos em plataforma de campanha.
Desde junho, não houve um só evento oficial que não fosse utilizado, secundariamente, para promover as candidaturas governistas, especialmente a de Amélia.
Deu tudo errado. Amélia teve menos votos em São José do que em outras cidades. Itamar foi menos votado que em 2010, quando não dispunha de estrutura de governo ao seu lado. Por fim, a utilização da máquina sem nenhum pudor constrangeu petistas que passaram anos criticando o aparelhamento da prefeitura pelo PSDB.
Em Taubaté, a candidatura de Diego Ortiz foi pensada como “plano B” do clã Ortiz. Na eventualidade de qualquer impedimento legal envolvendo Ortiz Junior, a família que domina a política local há três décadas pretendia projetar uma nova liderança política.
Com o andar da carruagem, a candidatura de Diego também adquiriu contornos de plebiscito sobre a administração Ortiz Junior. O candidato e seu irmão colaram as agendas políticas. O governo vendeu a ideia de que era preciso um parlamentar com afinidade absoluta com o Palácio do Bom Conselho para garantir verbas e projetos para o município.
Deu tudo errado. A impopularidade do governo Ortiz Junior se impôs e, no meio da campanha, sobrou até para o senador eleito José Serra, alvo de hostilidades durante agenda de campanha na cidade. A votação ridícula obtida por Diego Ortiz, por fim, deve ter feito enrubescer o patriarca, Bernardo.
Carlinhos e Ortiz Junior poderiam se unir em uma espécie de “terapia de governo”. Quase dois anos após a posse, a eleição fez o capital político que lhes restava se esvair. Apesar de algumas medidas administrativas positivas aqui e acolá, os dois prefeitos são encarados com aguda desconfiança pela maioria da população.
Em São José, as dificuldades políticas doe Carlinhos lançam sombras até sobre o eleitorado que o PT julgava cativo no município. A frentista de um posto onde abasteço meu carro regularmente há 12 anos sempre votou no PT. Este ano, mudou de lado e incorporou um discreto adesivo de Aécio Neves e Eduardo Cury ao uniforme. “Quero ver o PT varrido. Votei no Carlinhos, mas não acredito mais nesse partido.”
O depoimento, curto e grosso, dá uma ideia do desafio gigantesco de Carlinhos nos próximos dois anos.

Puxão de orelhas
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Sucessão
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Novos projetos
Deixo o dia-a-dia da Redação para me dedicar a projetos no terceiro setor nos próximos dois anos. É oportunidade para entender melhor as novas demandas da população