A nau dos insensatos

Estamos a sete dias das eleições. Quaisquer que sejam os resultados da votação em 5 de outubro, acredito que caminhamos para tempos sombrios, com a escalada da insensatez pelo país. Os derrotados vão aceitar o resultado das urnas? Não acredito. Haverá uma trégua na onda de agressões verbais e de denuncismo? Duvido.
Em tom de ironia, sugeri a uma colega mais radical, outro dia, que ela deveria lançar uma campanha pela independência de São Paulo. Brinquei que, para seguir cegamente as diretrizes políticas do Jardim Europa, só restava esta “solução final”.
Minha amiga vestiu a carapuça: em vez de se diferenciar em relação ao ideário obtuso dos Jardins, desancou a suposta falta de consciência política dos nordestinos e disse que, se a eleição fosse decidida por São Paulo, o país estaria melhor.
Se fosse um caso isolado, diria que é apenas uma expressão de preconceito, fantasiado de opinião política. Mas tenho familiares que pensam como a minha colega e muitos outros amigos, muitos bem formados e supostamente informados, que acreditam que a perdição política do Brasil está no Nordeste.
Então, está combinado: sairemos da eleição 2014 com o Brasil mais dividido do que nunca. De um lado, os “esclarecidos”. De outro, os supostamente”ignorantes” seduzidos pelas benesses do governo. É a versão política da desgraça econômica da Belíndia.
Historicamente, quem tira proveito desta radicalização é o governo. É possível conduzir os processos eleitorais na base do “nós contra eles” e tocar “terror” nas campanhas adversárias, que gastam seu tempo apagando incêndios.
No caso da sucessão presidencial, já houve ‘emparedamentos’ similares nos últimos oito anos. E boa parte da oposição não aprendeu: continuou a falar exclusivamente para os habitantes dos Jardins.
“É incrível, né?” Assim Aécio Neves resumiu na última semana sua perplexidade diante da liderança de Dilma nas pesquisas de intenção de voto. “Uma hora, isso vai deixar de acontecer. É uma vergonha o que está acontecendo no Brasil.”
Quem é o equivocado dessa história? O eleitor ou o político? O que fez Aécio nos últimos quatro anos para consolidar um projeto político para a oposição e conquistar o apoio desta parcela da população que agora o deixa tão perplexo?
A uma semana da eleição, mesmo a propensa terceira via de Marina parece ter enveredado de vez pela trilha da vassourinha udenista de Jânio Quadros, que fez a alegria dos mesmos Jardins em outros tempos.
Na labuta desde 1994, acompanhei muitas eleições de dentro da redação de um jornal. Confesso: em matéria de debate político, acho que evoluímos muito pouco e caminhamos para uma radicalização de posições que não fará bem ao país.
De minha parte, tomo emprestado e embaralho as palavras de Drummond, em seu posfácio à edição de “A Rosa do Povo” –num momento em que o socialismo real revelava a sua face mais cruel.
Ao longo de todos estes anos, muitas ilusões feneceram, mas o sentimento moral não mudou –e o esforço foi sempre na busca de um país melhor.

Fogo amigo
Militantes do PT em São José protocolaram recurso contra a propaganda eleitoral casada de Amélia Naomi (PT) e Itamar Coppio (PMDB). O grupo diz que iniciativa fere o artigo 227 do estatuto do partido

Adesão geral
Os três prefeitos do PMDB no Vale devem engrossar ato de apoio à reeleição de Alckmin. A reunião esta semana tem alcance estadual e pode ser a pá de cal na candidatura de Skaf

Casas de Marina
Pensadas para incentivar a militância voluntária, as ‘casas de Marina’ mudaram de cara. Em São José, até pontos comerciais recebem os banners que identificam as casas

Duelo entre as herdeiras de Lula

Marina e Dilma não têm o mesmo DNA político, mas beberam na mesma fonte durante muitos anos. Muito mais Marina do que Dilma.
Durante 24 anos, a história de Marina se confundiu com a história do PT. Herdeira do mito de Chico Mendes, a ex-senadora simbolizava o compromisso do partido com a causa ambiental. Em 2003, sua escalação como ministra do Meio Ambiente foi saudada em todo o mundo como um sopro de esperança para a Amazônia.
Na prática, Marina pouco pôde fazer. Quando a realpolitik de José Dirceu se impôs aos sonháticos de toda ordem que havia no partido, Marina virou apenas um troféu bonito na equipe de Lula, incapaz de mudar as situações de desequilíbrio ambiental espalhadas pelo país.
Quando Marina pediu para sair, virou traidora. O petismo, desde muito, não suporta defecções e trata como inimigos mesmo os que são expulsos por exigirem coerência ideológica.
Dilma precede Marina e o PT. Sua história se confunde com a história da militância de esquerda brasileira contra a ditadura militar.
O modelo de Dilma era Brizola e foi no PDT que ela reconstruiu sua militância política, após a redemocratização. Por isso, não eram poucos os petistas que consideravam a presidente uma neófita.
Pelas mãos do ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, Dilma tornou-se uma defensora ardorosa do PT ao longo do governo Lula e em sua gestão, para o bem e para o mal, radicalizou propostas defendidas pela legenda, especialmente na área econômica. Mesmo assim, a presidente é encarada com desconfiança absoluta pela maioria do petismo. Um amigo meu, militante histórico do partido, resumiu assim a tarefa eleitoral da legenda: “temos que eleger a Dilma, torcer para os próximos quatro anos passarem rápido e garantir o Lula em 2018″.
Se nenhum fato novo extraordinário ocorrer nos próximos 20 dias, Dilma e Marina devem disputar o segundo turno da eleição presidencial. Duas mulheres, duas herdeiras, cada uma a seu modo, da herança política de Lula.
No caso de Marina, nesta nova etapa, muitos vão tentar compreender, como diz Eliane Brum, por quê os Silva são tão diferentes. E talvez descubram que Marina sugere uma transversalidade na esfera pública para a qual o país (ou boa parte de seus eleitores) ainda não esteja preparado. Daí o sucesso do discurso do medo em voga atualmente.
No caso de Dilma, o segundo turno será a prova de fogo para o lulismo. Já se sabe que Lula vai assumir as rédeas da economia e definir as diretrizes políticas no do novo governo. Mas qual será a estratégia da campanha governista para restabelecer a ponte com a classe média que passou a odiar o PT?
Diz-se que Dilma foi a algoz de Marina no ministério de Lula, impondo a prioridade para novas hidrelétricas e avalizando o apoio ao agronegócio. Naquela época, de um modo pragmático, o país gradativamente foi seduzido pela promessa da inclusão social pelo consumo. Agora, Marina pode ser a algoz do governo Dilma, defendendo uma nova agenda para o país.
Façam suas apostas.

Kit escolar
O governo Carlinhos diz não ter concluído a pesquisa sobre o material escolar feita com os pais. A renovação do processo de compra, no entanto, já está pronta para ser disparada

Conexão BR
Por intermédio dos partidos, candidatos a deputados da região recebem doações de empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobras. Não há restrição de siglas

Matemática
Saiu uma nova estimativa de redução da bancada paulista do PT na Câmara dos Deputados: de 17 para 12 vagas. É mais um complicador para eleição de Amélia Naomi em São José

Uma presidente para chamar de sua

Não importa quem vai para o segundo turno: a eleição presidencial já tem um vencedor. Ele é um aliado de primeira hora dos tucanos, desde o governo FHC. Mandou e desmandou no governo Lula, desde a “Carta ao Povo Brasileiro”. Agora, feito inédito, estabeleceu um pacto pré-eleitoral com os três candidatos “competitivos” na disputa pelo Planalto.
O mercado financeiro não tem como perder em 2015. Seu candidato preferido era Aécio. Sua paixão do momento é Marina. Sua aversão por Dilma é notória, mas possui o aval de Lula para surfar sem riscos a partir de 2015.
Nos dois mandatos de Lula, os bancos registraram recordes de lucros consecutivos. A “extorsão” legalizada de clientes permaneceu inalterada. O aumento da renda média da população e o impulso ao consumo permitiram que as instituições atravessassem, sem sobressaltos, o furacão de 2008.
Com o governo Dilma, houve um abalo na relação política com o mundo financeiro quando o Planalto impôs uma trajetória acelerada de redução de juros. A banca reclamou da suposta ingerência no Banco Central. Os fundamentos da economia brasileira passaram a ser questionados.
<CW-4>Nada disso abalou, naturalmente, o cofre dos bancos. O Itaú lucrou a cifra recorde de R$ 15,6 bilhões em 2013. O Bradesco, R$ 12 bilhões. E nada disso abalou a amizade de Lula com os banqueiros. Emílio Botín, chefão do Santander, emprestou até um jato para que o ex-presidente se deslocasse em viagens pela Europa.
Na campanha de 2014, Lula é o fiador de Dilma junto ao mercado financeiro. Quando o ex-presidente esbravejou contra relatórios eleitorais do Santander, a encenação fez ferver o sangue da militância mais tosca. Tolice: o puxão de orelhas tinha outro significado, algo como “não boicotem a reeleição porque a relação de Dilma com o mercado vai melhorar”.
No campo da oposição, a autonomia política de Aécio foi devorada simbolicamente pela sua fixação com o mercado financeiro. Sua mensagem mais expressiva à opinião pública, a “nomeação” de Armínio Fraga para a Fazenda, confirmou o óbvio: o primeiro tributo de seu governo seria rendido aos financistas.
Com Aécio prometendo um casamento sem votos, o mercado volta suas atenções para a “namoradinha do Brasil”. O affair com Marina começou timidamente, ainda em 2010. Agora, as declarações públicas de amor são mútuas, com promessas de regalos antes incompatíveis com a biografia da ex-senadora acreana.
Escudada por herdeira do banco Itaú, Marina faz juras diárias ao mercado. Logo no início da campanha, prometeu independência para o Banco Central, arrepiando os últimos fios de cabelo de Roberto Amaral. Rezou publicamente o catecismo da austeridade e das metas de inflação. Por fim, para fisgar de vez o noivo, sugeriu prioridade aos bancos privados em nova política de estímulo ao crédito.
Nem precisava tanto. O mercado dormiu com Aécio e “marinou” logo após a morte de Eduardo Campos. Cheio de gatos escaldados, no entanto, não desgruda os olhos de Lula, que pode ser o fiel da balança agora ou a partir de 2015.

Voto útil?
O candidato a vice de Alckmin, Márcio França, avalia ofensiva no interior do Estado para pregar ‘voto útil’ ds tucanos em Marina Silva. Pode ser a pá de cal da candidatura Aécio

Zoneamento
Insatisfeitos com os rumos da nova lei de zoneamento, Vítor Chuster e Marco Aurélio Angeli, o Macumba, deixaram cargos de confiança na Secretaria de Planejamento de São José

CEI da arena
A ação judicial de Eduardo Cury contra Carlinhos e a prefeitura vai ‘esquentar’ a CEI da Arena. Governistas querem que Cury explique à Câmara o pedido de manutenção da Recoma

Agosto é mês de cachorro louco

Agosto é mês de cachorro louco. Era isso o que o meu pai dizia toda vez que chegava o mês da ventania e a gente tinha que enfrentar a escuridão e o frio da madrugada para trabalhar.
Uma noite, quando meu pai estava na cidade, um de nossos cachorros, começou a uivar de forma estranha, preso à corrente por orientação do veterinário. Meu irmão mais velho abriu a porta da copa e desceu a escada que dava para o quintal da fazenda. Eu, minha mãe e minha irmã mais nova ficamos nas janelas, observando à distância. Então, quando meu irmão se aproximava do riacho onde havíamos improvisado um canil, o cachorro arrebentou a corrente, passou por suas pernas e subiu a escada para invadir a sede da fazenda, aproveitando que a porta ficara aberta.
Foi um “Deus nos acuda”. Corri para o quarto, subi no beliche. Minha irmã ficou na sala, viu o Ike avançar rosnando e foi salva pela minha mãe, que a colocou em cima da mesa enquanto ralhava com o cachorro. Por fim, o Ike correu para a copa e ali se deixou abater debaixo da mesa, prolongando os uivos lancinantes noite adentro.
O surto de raiva na fazenda em Minas ficou para sempre marcado na memória como um dos episódios mais tristes de minha infância.
Hoje, quase 40 anos depois, posso dizer novamente que agosto é o mês dos cachorros loucos. Só que eles, agora, são de natureza humana, e estão entrincheirados nas fileiras dos partidos que disputam a Presidência da República.
É gente que não suporta uma crítica aos seus candidatos e enxerga todas as notícias adversas como conspirações de inimigos. Eles utilizam as redes sociais para destruir reputações, destilar preconceito e disseminar boatos. Eles acreditam que o mundo vai acabar depois de 5 de outubro se o candidato de sua preferência não vencer as eleições .
Fui vítima dessa gente. “Cachorros loucos” ligados ao PT me chamaram de “buldogue fascista” depois que apontei a mesmice dos programas de governo e disse que Dilma é uma espécie de “Pollyana” instalada por Lula no Planalto. Os raivosos do PSDB, por sua vez, ficaram revoltados com as críticas que fiz à mediocridade do terceiro mandato de Alckmin.
Tenho amigos no PT e no PSDB. Não imagino perdê-los por conta de uma disputa eleitoral e não planejo me furtar à análise dos cenários políticos para não ofender quem me lê com a lupa do preconceito.
E, no entanto, essa eleição caminha de um jeito que o ar envenenado parece prestes a nos sufocar. Nas ruas, nos bares, nos ambientes de trabalho, tudo é reprodução simétrica da virulência da internet. Nem mesmo a morte trágica de Eduardo Campos mudou o rumo dos acontecimentos –nas redes, as teses conspiratórias e as provocações não fizeram luto.
Não quero viver em um país de cachorros loucos. Antes que o caldeirão de ódio transborde, o país precisa salvar o que há de mais sagrado na democracia, que é o respeito à alteridade, consagrado pela ferramenta do voto. Há quem acredite que a morte de Campos possa elevar o nível do debate político no país, em sinal de reverência à sua memória. Será?

Volta Lula
O ex-presidente Lula avalia os efeitos da entrada de Marina na sucessão presidencial. Ele já teria avisado: se a ex-senadora ameaçar PT, entra em campo em setembro, no lugar de Dilma

Fator Balieiro
A sucessão da Câmara de São José passa pelos planos de Carlinhos para o secretário Wagner Balieiro. Para muitos, ele é aposta do prefeito para comandar o Legislativo

Voto antipetista
A receptividade ao nome de Eduardo Cury na disputa pela Câmara Federal surpreende
até seus aliados políticos. A avaliação é que ele galvaniza o “sentimento” anti-PT

Quem vai querer ‘picolé de chuchu’?

O governador Geraldo Alckmin é favoritíssimo na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Segundo o Ibope, tem 50% das intenções de voto, mais o que dobro da soma de seus adversários.
Com a reeleição de Alckmin, o PSDB está prestes a conquistar um feito improvável: manter o controle do Estado mais rico do país pelo período ininterrupto de quase um quarto de século.
O sucesso de Alckmin é um fenômeno eleitoral. A falta de carisma do tucano é tão proverbial que ele ganhou o apelido de “picolé de chuchu”. Seus discursos são uma repetição de chavões e de historinhas provincianas. Seu terceiro mandato vai pouco além do medíocre, com promessas cumpridas pela metade e uma equipe apinhada de secretários sem expressão política ou capacidade gerencial. Seu plano de governo tem a platitude de um deserto de ideias.
Desgastado pela crise hídrica, pelo fantasma do cartel de metrô e pela violência, Alckmin seria, nos manuais dos marqueteiros, um candidato quase inviável. Mas por quê o tucano faz seus adversários comerem poeira?
A reação mais banal é denunciar o conservadorismo do eleitor paulista. Outra análise recorrente é de que Alckmin triunfa porque seus adversários são muito ruins.
São mantras fortes, mas insuficientes para explicar o sucesso de Alckmin. Por quê o eleitor paulista descarta mudança no Palácio dos Bandeirantes com um cenário mudancista no restante do país e no plano nacional? Por que a fadiga de material do PSDB não cola na imagem do governador?
Avalio que há outros fatores em jogo. Primeiro, a percepção de que Alckmin encarna o “antipopulismo” e o avesso da “espetacularização” da política, fenômenos que já renderam votos no país, mas hoje assustam boa parte do eleitorado. Em contraponto a Dilma, o tucano tem uma admirável capacidade de vender sua imagem como “gerentão”.
O segundo fator é o antipetismo. São Paulo promete ser um
“osso” para a reeleição de Dilma, com a rejeição à presidente batendo na casa dos 47%. Metade do eleitorado de São Paulo deseja tudo, menos o PT à frente do Palácio dos Bandeirantes. Adversário contundente de Lula em 2006, Alckmin colhe os frutos da tática suicida do PT de transformar em heróis os réus do mensalão.
Então, a força de Alckmin não é o que ele representa, mas o que ele jamais será. E não é questão de falta de opção: o eleitor alckmista tem convicção do que não quer.
Um quarto de século no poder é uma façanha e tanto. Na história das democracias modernas, o máximo que o Partido Conservador conseguiu foram 21 anos de poder ininterrupto na Inglaterra do século 19. Nos Estados Unidos, apenas no início da República, houve domínio equivalente de um mesmo grupo político.
Em São Paulo, houve o monopólio do PRP da República Velha, legenda de fachada em uma democracia de fachada. No Brasil atual, o paralelo está nas oligarquias do Nordeste.
São Paulo vai virar um Maranhão? Não acredito. Mas, em 2014, a alternância de poder tornou-se ferramenta irrelevante para o eleitor do Estado.

Sem esperança
Lideranças do PT na região já “jogaram a toalha” em relação à candidatura de Alexandre Padilha. A meta agora é evitar vexame em outubro, com pelo menos 20% dos votos

Foco de resistência
O bloco governista em São José está surpreso com a dificuldade em convencer o eleitorado de renda mais baixa em votar em Amélia Naomi, especialmente no “fundo da zona sul”

Nova direção
O vereador Carlos Alberto Macedo Bastos consolida a posição de favorito à sucessão de Amélia no comando da Câmara de São José. A costura é feita por Jorley Amaral

Vale o que está escrito?

O eleitor liberal ou “de direita” no Brasil precisa encontrar um candidato mais “confiável” para a presidência da República. Tratado como mera “dissidência” petista, Eduardo Campos (PSB) não é opção. Mas Aécio Neves (PSDB) vale a aposta?
Boa parte dos eleitores que antecipam a opção por Aécio em 5 de outubro acredita que o tucano vai acabar com o aquilo que classificam como proselitismo social do PT. Antes, porém, Aécio teria que rasgar o programa de governo que encaminhou à Justiça Eleitoral.
Está escrito.
Não adianta reclamar que o Bolsa-Família é esmola oficial, paga com dinheiro dos contribuintes. Aécio quer transformar o Bolsa- Família “em política de Estado, como direito permanente das populações mais vulneráveis social e economicamente”.
É não é só isso: o tucano quer incentivos adicionais para a famílias pobres que tiverem filhos concluindo o ensino fundamento e médio.
Não adianta se queixar da política de cotas e das bolsas integrais do Pró-Uni sob a alegação de que promove o ingresso de despreparados nas universidades. Aécio diz que é fundamental manter e aprimorar o sistema e o Fies.
E o que dizer do Minha Casa, Minha Vida? Muitos adversários do PT consideram escandalosos os critérios adotados pelo programa, que privilegia moradores de áreas de risco e ocupações irregulares. Mas está lá, escrito, no programa de Aécio: “manutenção e ampliação de programa nos moldes do Minha Casa, Minha Vida”, com “prioridade de investimento nas áreas de risco e assentamentos precários das metrópoles”.
E o famigerado “Mais Médicos”, tratado como importação de médicos cubanos a preço de banana para tirar o emprego dos brasileiros e ameaçar a Saúde da população? Não é que Aécio sugere manter e ampliar o programa? E tem mais: quer que o governo ofereça cursos para que os médicos estrangeiros possam fazer a prova do Revalida.
E tem muito mais: apoio à agricultura familiar e aos núcleos de agroecologia, estímulo aos movimentos afrodescendentes e LGBT, transformação da rede de enfrentamento à violência contra a mulher em programa de Estado. Mas, alto lá, este é um programa de governo do PSDB ou do PT ?
Se consideradas as raízes históricas do PSDB, seria apenas um caso de falta de criatividade. O problema é que a expectativa de parte do eleitorado tucano é antagônica aos compromissos sociais assumidos por Aécio. O que este eleitor quer é o fim do Bolsa-Família, e ponto final. Então, quem está se deixando enganar por quem?
Eu só acredito no Bolsa-Família como política transitória. Se a miséria é encarada como problema insolúvel e necessita de programa permanente, nosso fracasso enquanto Nação está consumado. Mas aí está Aécio defendendo a “esmola oficial” permanente para não afugentar o voto dos pobres.
Essa é apenas um das encenações que teremos pela frente, até 5 de outubro. A outra é protagonizada pelo petismo e pela ambígua figura da Pollyana instalada no Palácio do Planalto –o reino da fantasia onde até a inflação é´”manobra diversionista” da oposição.

Digitais
Parte da bancada governista em São José atribui à má vontade do ex-secretário de Governo Paulo Rogério de Toledo o atraso na liberação de recursos da LIF do Esporte

Trem-bala
A campanha de Aécio Neves à Presidência retoma o tema do trem-bala: o projeto fracassado de Dilma será utilizado como exemplo do desperdício de verbas do governo federal

Fora do roteiro
Com campanha prioritária na Região Metropolitana de São Paulo, Alexandre Padilha (PT) só tem, por ora, uma agenda no Vale: será no dia 8 de agosto, com caminhada em São José

O diabo na rua, no meio do redemunho

O Plano Real completou 20 anos com muita festa e pouca reflexão sobre as mudanças que ocorreram no país e aquelas que restaram apenas como promessas dos palanques eleitorais.
Quando me mudei para São José, o país vivia o trauma do
confisco da poupança pelo Plano Collor e o drama de uma inflação acima de 20% ao mês.
A cidade era um retrato da carestia: crise na indústria, desemprego, prefeitura à beira da falência e serviços públicos sucateados. Ironicamente, depois de o PT fazer oposição ao real, a estabilização da economia, a partir de 1994, mudou também o rumo do governo Angela Guadagnin em São José. O orçamento do município deu um salto e sobrou dinheiro para
investir em obras públicas e hospitais.
A recuperação da indústria e dos empregos foi mais gradativa e lenta. As indústrias automotiva e aeronáutica haviam enfrentado quase uma década de estagnação e tiveram que se reinventar.
Com a moeda estabilizada, a maior novidade foi a expansão
acentuada do setor de serviços, o que mudou a cara das maiores cidades da região.
Tudo perfeito, então? Claro que não. O fosso social no país
permaneceu intransponível durante os anos FHC. O real sobrevalorizado atrapalhou investimentos e virou uma bomba de efeito retardado no colo de um governo mais preocupado em garantir a emenda da reeleição.
E então, a recessão virou o remédio amargo para evitar a volta da inflação.
Com governo Lula, as diretrizes mudaram e houve uma forte expansão da economia baseada no oferta de crédito e no
consumo. O PT também adotou uma eficiente política de complementação de renda, batizada de Bolsa-Família, e criou mecanismos de ascensão social na educação.
Tudo perfeito, enfim? Muito pelo contrário. O real continua sem o lastro de um sistema tributário mais justo, o país tem uma infraestrutura precária e a produtividade da indústria despenca.
Mesmo na área social, depois de 12 anos de governo do PT, nossas chagas ainda são muitas: aumento da violência, pobreza resiliente, indicadores sofríveis na educação.
Em ano de eleição presidencial, confesso, é frustrante ver um debate estéril entre dois modelos de gestão que ficaram pelo meio do caminho e que agora só sabem gabar-se de seus feitos.
Os economistas de plantão, nos dois campos políticos, ganham novamente status de gurus dos candidatos e empurram as decisões políticas para o redemoinho da economia. O que vem daí nunca é bom: se não é o maligno, o tisnado, o não-sei-que-diga, é quase.
Temo que a mediocridade reinante no mundo político seja apenas um espelho do que se transformou o nosso país. Terminada a festa da Copa, vamos ter que nos confrontar com as limitações de nossos candidatos e ouvir diagnósticos carregados de pessimismo ou contaminados pela cegueira do poder. Dilma, Aécio, Campos… Faremos a escolha do menos ruim. E o país estará condenado à danação dos pibinhos ou à insaciabilidade dos abutres do mercado financeiro.

Chega de fila
Luiz Jacometti, secretário de Desenvolvimento Social de São José, intensificou a fiscalização das entidades com contratos com a prefeitura. A meta é acabar com a ‘cultura da fila’

Chapa católica
A Igreja Católica em São José montou uma ‘chapa própria’ para a eleição de deputado, com Lino Bispo (PR) e Flávia Camargo (PHS). A dupla tem o apoio de Juvenil Silvério (PSDB)

Arena da discórdia

O PSDB de São José pretende elevar o tom contra membros do governo petista que criticaram as obras da arena esportiva. Planeja-se até notícia-crime contra secretário

Patrulha contra os gols de Neymar

Temos uma nova patrulha ideológica nas ruas. É a turma que não admite que se torça pelo sucesso do Brasil na Copa, na expectativa de que a derrota da seleção amplie o pessimismo e provoque mudanças nas urnas. Já torci contra o Brasil em Copas do Mundo e fui bastante pelos colegas e amigos. A razão é simples: não consigo torcer por seleções cujo futebol não me agrada. Em 1990, aplaudi a vitória da Argentina de Maradona e Caniggia sobre o Brasil de Lazaroni. Em 1994, a única seleção que me empolgou foi a Holanda. Em 2010, não acreditei, em nenhum momento, na seleção (?) de Dunga. E a seleção de Felipão? Vejo um time “europeu”, sem nenhuma identidade com os clubes brasileiros e com uma defesa melhor do que o ataque. Ainda não decidi se torço contra ou a favor –em 1998, comecei torcendo contra, fui contaminado pela vibração de Zagallo e terminei perplexo com o desmonte psicológico do time na final contra a França. Futebol é assim, cada um no seu quadrado, mesmo quando o assunto é seleção. Mas a Copa no Brasil traz um fenômeno novo: quem torce pelo pela seleção do país é visto como traidor da pátria por aqueles setores da sociedade que radicalizaram sua opção política pela oposição. Prega-se que o futebol é ópio do povo como os comunistas já pregaram, no século 19, que a Igreja era a perdição da humanidade. Condena-se quem hasteia a bandeira ou pinta os muros com as cores da seleção como se fossem analfabetos políticos. Existe até a nostalgia de um país que nunca existiu. A patrulha repudia a Copa no Brasil, mas ignora o fato de que a política sempre pegou carona com o futebol. Vende-se a ideia de que, no passado, era possível torcer inocentemente pela seleção porque os destinos do país estavam em boas mãos. Era exatamente o que pregavam os militares, o “Brasil que vai para frente” do ditador Garrastazu Médici. Eu prefiro o Brasil dos protestos e da população que pode ir às ruas para questionar os governantes. A eleição é no dia 5 de outubro e não, em 13 de julho. Não acredito que a vitória ou a derrota da seleção sejam decisivos para definir quem será o futuro presidente. Se a seleção triunfar, a festa nas ruas será bonita, mas não vai durar mais que uma semana. O furor dos debates sobre a infraestrutura precária da Copa também tem prazo de validade: nossa “vergonha” em relação à Copa não vai durar além de julho. Em agosto, as atenções se voltam para as propostas (ou a falta delas) dos candidatos ao Planalto. O voto é uma opção racional. O eleitor pesa prós e contras, vai avaliar o que houve de errado no atual governo, quais foram os avanços e o que a oposição tem a oferecer. E, naturalmente, o critério de cada eleitor vai se basear nas necessidades e demandas de seu dia-a-dia, seja ele pobre, remediado ou rico; servente, engenheiro ou construtor. A patrulha contra a torcida na Copa acha que o povão vai ser manipulado pelos gols de Neymar & cia. Seu desejo secreto é tutelar o voto dos pobres, como faziam os coronéis da República Velha. Desse país, não sinto nostalgia alguma.

A volta dos kits
Bancada e dirigentes do PSDB apresentam amanhã novo relatório sobre a compra de kits escolares em São José. Tucanos identificaram novas evidências de fraude no processo

Sem comando
O Departamento de Receita da Prefeitura de São José está sem comando. Governo procura substituto para Afonso Tarata Filho, forasteiro que deixou recentemente o cargo

Estrutura
O publicitário Dimas Soares engajou-se na pré-campanha de Amélia Naomi a deputada federal. Marcos Aurélio dos Santos e Dalton Ferracioli também estarão no staff

A Copa em clima de ressaca

“Se entra na chuva é para se queimar?”
O Brasil vive a ressaca da Copa antes mesmo de o evento começar. O ministro Gilberto Carvalho culpa a imprensa pelo pessimismo, mas a frustração do país com o Mundial é tão incontornável quanto as frases-feitas dos jogadores de futebol no intervalo dos jogos.
Se considerarmos indicadores do ‘torcidômetro’, a Copa parece mais distante do país que o Mundial disputado no Japão. A duas semanas do evento, são poucas as ruas enfeitadas, os bolões de apostas. Apenas os bares se vestem de verde e amarelo, de olho nas vendas de cerveja durante a Copa.
É o apelo publicitário do evento, aliás, que ajuda a conter o baixo astral. Emissoras de TV contrataram patrocínios milionários e, agora, só lhes resta dourar a pílula, tratar a seleção de Felipão como o melhor ‘escrete’ de todos os tempos e disfarçar a angústia com as mazelas da Copa.
Fomos engabelados pela fantasia da Copa perfeita, pelo mito do padrão Fifa na mobilidade urbana, nos aeroportos e na segurança pública. Vamos entregar ao mundo uma Copa do jeito que ela inevitavelmente seria em um país como o Brasil: com atrasos e mortes nos Estádios, obras incompletas nas cidades e o eterno fantasma da violência, colocando em risco a vida de residentes e turistas. Depois de um curto período de prosperidade econômica e ilusão de que poderíamos ingressar no primeiro mundo, a Copa nos devolve o complexo de vira-latas.
Enredado pelas críticas à falta de planejamento e pela subserviência à Fifa, o governo federal perdeu a batalha de comunicação da Copa. “Para que investir tanto dinheiro para passar vergonha?” Esse é, no fundo, o questionamento que todos fazemos, dos mais endinheirados aos mais pobres.
Se a Copa fosse tratada como um esforço do Brasil para realizar um evento digno, talvez a percepção do Mundial fosse diferente. Sem gigantismo do evento acordado com a Fifa, como a escolha de 12 cidades-sedes, e sem a megalomania do governo, o Brasil poderia ter feito o dever de casa. Haveria custos elevados em obras e atrasos? Claro que sim. Mas a população não se sentiria tão ludibriada e constrangida.
O Brasil chega à Copa mal-humorado, desconfiado, cético. Manifestações de sindicatos e grupos radicais aumentam o clima de insatisfação com o Mundial, transformado em pretexto para a toda sorte de atos de vandalismo e violência.
Vai ter Copa? Para muitos, infelizmente, sim. Brasileiros que não se conformam com o Mundial no país tratam o acordo com a Fifa como uma aventura criminosa do governo e dizem que a imagem do país já foi, inapelavelmente, arranhada. Em silêncio, junto com a oposição, torcem para que a seleção de Felipão fracasse.
O governo acredita que os deuses do futebol farão o cenário mudar quando a bola rolar no Itaquerão. Se a seleção brasileira for bem, o Planalto avalia que pode até tirar uma ‘casquinha’ na campanha à reeleição.
“Quem não faz toma.” Nas próximas duas semanas, a frustração das ruas vai conviver diariamente com a tensão nos palácios. A Copa no Brasil virou uma “caixinha de surpresas”.

Ecos da ditadura
A bancada do PT em São José desistiu de mudar os nomes do bairro 31 de março e de ruas que fazem referência ao regime militar. Carlinhos convenceu os vereadores que medida traria transtornos aos moradores.

Crise no ninho
O PSDB não acredita que Juvenil Silvério concretize já seu plano de mudar de partido. A avaliação é que o voo solo do tucano depende do resultado da eleição de outubro

Alvo preferencial
A utilização da Urbam para realização de obras complementares na arena esportiva de São José pode ser alvo de novas denúncias do PT contra o governo Cury.

De olho no butim do Paço

A bancada governista na Câmara de São José dá sinais de que está farta de ‘migalhas’. Mesmo com visitas aos bairros ao lado do prefeito Carlinhos e encontros no sétimo andar do Paço, fenece a ilusão de que os vereadores são parceiros do governo do PT. Enquanto isso, os gabinetes da Câmara observam, inquietos, a máquina petista gerenciar os contratos e programas de interesse real da administração.
Com o PSDB, a cooptação dos vereadores foi mais pragmática. Podia ser medida pelo número de cargos ou pelos valores das obras negociadas nos redutos eleitorais governistas. Era tratada pelos secretários de Governo e quase nunca, pelos prefeitos. Resultava em atrelamento com pouca margem de manobra para coações.
Com seu estilo centralizador, Carlinhos dispensou intermediários. Telefona para vereadores até para desfazer mal-entendidos de funcionários de terceiro escalão, como já ocorreu em reunião com lideranças comunitárias no Jardim das Indústrias. Chama para si a responsabilidade de evitar conflitos dentro da bancada. No trato com o Legislativo, acredita que política ainda é arte retórica.
A estratégia do prefeito começou a fazer água quando escolheu para a Secretaria de Governo um assessor bom de conversa, mas com baixa capacidade de resolução política –nome mais comprometido com a pré-candidatura de Amélia a deputada federal do que com a unidade política em torno do governo. E a situação piorou com a escolha de um político inexperiente para a liderança do governo no Legislativo.
Não há indícios de uma rebelião aberta declarada contra o governo. O que está em curso é uma tentativa de mudança de patamar na relação com a administração. Em outras palavras: os vereadores querem mais cargos e mais verbas para manter o apoio incondicional a Carlinhos. Querem também o compromisso de que os interesses eleitorais do PT, em especial a candidatura de Amélia, não vão interferir nas áreas sob sua influência política.
Não é pouco o que a maioria situacionista exige, especialmente para um governo que trava uma difícil batalha contra a impopularidade. Se reduzir o espaço do petismo na máquina, Carlinhos corre o risco de comprar briga com a base do partido e dificultar ainda mais a tarefa de promover a administração.
Com o impasse, a tendência, nas próximas sessões de Câmara, é observar críticas mais frequentes ao governo municipal. Há algumas semanas, o alvo foi a questão da mendicância. Hoje, o tema é o arroz com ovo frito da merenda escolar. Amanhã, pode ser a inoperância da administração em relação aos empreendedores.
O prefeito Carlinhos acredita que parte de seus problemas resulta da comunicação deficiente com a população. Iniciou, por isso, uma série de visitas a canteiros de obras e aos bairros. Se isso representasse um Poder Executivo menos refém da bancada situacionista, poderia até ser positivo para a cidade, a longo prazo. O que se observa, no entanto, é o prefeito caindo na armadilha de assessores que desprezam aliados políticos. E o preço a ser pago pelo eleitor será alto.

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