A rainha sem trono dos trópicos

A apresentação da nova equipe econômica da presidente Dilma Rousseff foi descrita por um articulista mais crítico como a posse da “Junta Econômica”. Trata-se de uma alusão às trincas de generais que assumiram o comando de diversos países da América Latina na segunda metade do século 20, após golpes militares.
A Junta Econômica de Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini não tem o poder de prender ou torturar adversários políticos. Em compensação, reduz a pó a autonomia da presidenta, transformada da noite para o dia em uma rainha sem trono dos trópicos.
Com a posse da Junta Econômica, a autonomia que Marina Silva prometia conferir ao Banco Central virou regalo de segunda linha oferecido ao mercado. Com Levy, Barbosa e Tombini, mesmo a opção antecipada de Aécio por Armínio Fraga ganha contornos de terapia de choque menos traumática.
A banca está satisfeitíssima com o Planalto. A perspectiva é de um longo período de juros elevados e de lucros escandalosos no mercado financeiro. Some-se a isso o torniquete nos investimentos e financiamentos públicos e os banqueiros receberão de volta os poderes plenipotenciários sobre o paraíso.
E a classe operária, onde fica nesta equação? As projeções são sombrias. Com crédito curto, o consumo vai ficar estagnado e a indústria não terá como recuperar o ritmo de produção. Resultado: demissões em massa. Com a ditadura da tesoura, a expansão e mesmo a manutenção de programas sociais correm sério risco.
Dilma foi eleita sem apresentar nenhum programa de governo. O que nenhum eleitor seu esperava é que a presidente adotasse e radicalizasse o programa dos adversários. Para a maioria deles, naturalmente, as consequências da posse da Junta Econômica ainda são insondáveis ou pouco palpáveis. Quando o remédio amargo começar a ser aplicado, no entanto, será impossível ignorar seu gosto travado.
Mesmo os petistas mais deslumbrados podem colocar as barbas de molho. No plano de ação da Junta Econômica, iniciativas como o PAC devem ir para o freezer, levando consigo todas obras pactuadas com os prefeitos e governadores alinhados com o Planalto. No caso de São José, existe ameaça real ao BRT, o único projeto estruturante idealizado pelo prefeito Carlinhos Almeida após dois anos de governo.
Haveria alternativa à trinca da tesoura? A reeleição em clima de xepa dificulta a análise e turva as avaliações. A economia do país não vai bem, mas um remédio excessivamente amargo pode matar o paciente ou representar novo retrocesso histórico.
Economistas alinhados à Junta Econômica passaram a defender publicamente, por exemplo, que é preciso aumentar o desemprego para reduzir pressão inflacionária do consumo. É choque neoliberal puro.
Diante de um cenário tão distante do ideário historicamente defendido pela presidente e do esvaziamento político do Palácio do Planalto, a pergunta central é a seguinte: será que Dilma vai conviver pacificamente com a Junta Econômica? Eu aposto que não.

Virou vexame
Como definir um governo sem rumo político? Aquele em que o líder do prefeito é eleito presidente da Câmara contra a vontade do Executivo e com os votos decisivos da oposição

Sobe e desce

Na eleição da Câmara, além de Carlinhos, maior derrotado foi o presidente do DEM, Jorley Amaral. No grupo vitorioso, a sombra de Shakespeare Carvalho é Walter Hayashi

Caldo de galinha
Em Taubaté, apesar de não morrer de amores por Digão, Ortiz Junior foi mais prudente e não embarcou na candidatura de Joffre Neto. Saiu da disputa com ares de vitorioso

O desenvolvimento acima de tudo

Acompanhei há alguns dias debate sobre candidatura de Paraty a patrimônio mundial da humanidade. O tema é polêmico no município. Por conta das regras impostas pelo Iphan, nenhum imóvel na cidade pode ter mais de dois pavimentos. Por conta dos decretos ambientais que se multiplicaram durante o regime militar, como contrapartida para a instalação de usinas nucleares vizinhas, 95% da área do município tem uso e acesso restritos.
A população de Paraty teme que o título de patrimônio mundial da humanidade torne estas restrições ainda mais rigorosas e trave o desenvolvimento do município. Hoje, as regras do Iphan e a escassez de áreas edificantes inviabilizam programas habitacionais. Tenho acompanhado de perto conflito surpreendente. De um lado, os defensores do ambicionado título de patrimônio mundial lembram que Paraty bateu na trave duas vezes e não levou. Agora, com a inclusão das áreas de preservação ambiental entre os sítios protegidos, suas chances aumentam. De outro, os moradores com raízes na cidade dizem que o título almejado ameaça futuro de um dos maiores patrimônios da cidade, que é cultura do povo caiçara, que vive nas regiões de costeiras, e a herança dos quilombolas.
Paraty tem me ensinado que as regras restritivas absolutas e verticalizadas, embora bem intencionadas, não promovem o desenvolvimento sustentável.
À distância, a experiência de Paraty ajuda a compreender, também, a esquizofrenia do debate sobre a instalação do WTC em São José. Entre 1997 e 2010, São José foi o município do desenvolvimento a qualquer preço. Esta foi a política adotada pelo PSDB para destravar economia do município e incentivar a expansão urbana e a construção civil. Este foi o embrião de equívocos irreparáveis, como a verticalização excessiva do Jardim Aquarius. Ali, até o início da década de 90, as únicas coisas que existiam eram pastagens e bois.
O ex-prefeito Eduardo Cury teve a coragem de acabar com o vale-tudo, mas foi malhado como Judas em sábado de aleluia. Moto contínuo, os mesmos vereadores que vestiram a carapuça de vilões ao transformar a Lei de Zoneamento anterior em uma colcha de retalhos viraram os paladinos do desenvolvimento, pregando a revogação da legislação aprovada por Cury. Por fim, a lei virou letra morta e insepulta.
Em Paraty, onde moro no momento, os olhos de todos se voltam para o passado, mas a cidade sufocada clama por alguma brecha para o desenvolvimento. Em São José, o passado pouco importa. O monstrengo do desenvolvimento se impõe a tudo e a todos. Se alguém promete gerar emprego e renda, todo investimento se torna justificável e toda a mudança na lei é razoável. Este é o cerne do debate sobre o WTC, projeto capitaneado por Ozires Silva, o “mago” do desenvolvimento joseense.
Quem está certo? É difícil avaliar. No Brasil, infelizmente, ainda estamos presos à “era dos extremos”. Então, fica o registro: na minha avaliação pessoal, nem mesmo força econômica de uma nova GM poderia minimizar o impacto da ocupação do último vazio urbano do saturado Aquarius.

Balança tucana
O placar está nove a nove. A disputa pela comando da Câmara de São José está empatado entre Shakespeare Carvalho (PRB) e Wagner Balieiro (PT). O fiel da balança, quem diria, será o PSDB.

Felipe Massa
Wagner Balieiro queimou a largada. Pouco antes de voltar à Câmara, excluiu vereadores influentes da base governista do debate sobre os investimentos do WTC.

Sucessão
A disputa pela Câmara de Taubaté passa pelo processo de cassação de mandato do prefeito Ortiz Junior (PSDB). Com Digão à frente, o tucano costura uma chapa que não seja ameaça adicional ao governo.

Dois recados das urnas para 2014

O Bolsa-Família, quem diria, virou o alvo do terceiro turno da eleição presidencial.
O mesmo programa que tem a paternidade reivindicada pelo PSDB e é objeto de um projeto de Aécio Neves para que seja transformado em política de Estado, é apontado pelos eleitores tucanos como o motivo de mais uma derrota na disputa pelo Palácio do Planalto.
Não faz muito sentido, não é mesmo? Só se levarmos em conta que o Bolsa-Família é apenas a ferramenta utilizada por parte da militância tucana para legitimar ideias bem mais retrógradas, como o preconceito contra nordestinos e pobres.
Este preconceito, esta necessidade de estabelecer uma divisão do país, busca legitimação política e social desde o 22 de abril de 1.500, quando Cabral desembarcou na Bahia e mandou vestir os índios. Não soubemos lidar com a diferença e, muitas vezes, não aceitamos que esta é uma medida essencial para a democracia. Cultivamos a ignorância como instrumento de dominação social e ficamos indignados quando os ‘ignorantes’ contrariam nossas vontades e trilham caminhos imprevistos.
Durante séculos, essa foi a régua da política tupiniquim. Que esta lógica tenha mudado um pouco, mesmo que milimetricamente, é natural que se transforme em fator de pânico para os herdeiros conscientes e inconscientes dos senhores de escravos. No terceiro turno da eleição presidencial, vale até exigir do TSE auditoria nas urnas eletrônicas. Afinal, quantos não disseram que nordestinos e pobres não sabiam votar e que este seria um fator favorável a Aécio?
Melhor, para os tucanos, seria seguir os conselhos do ex-presidente Fernando Henrique e tentar entender por que, mais uma vez, o partido só conseguiu falar para uma parte do Brasil. Tudo conspirava contra a reeleição de Dilma, a crise econômica, os escândalos da Petrobras, a fadiga de material petista. E, ainda assim, os tucanos bateram na trave.
Mais do mesmo?
No seu discurso da vitória, Dilma pregou o diálogo com a oposição, mas não citou, uma só vez, Aécio Neves. Fez apologia da militância petista e dos partidos aliados (?), elogiou até a mulher do vice-presidente, Michel Temer, mas pouco falou ao povo. Não houve nenhuma mensagem de agradecimento explícita e sincera aos 54,5 milhões de eleitores que garantiram ao PT mais quatro anos no Planalto. Não houve qualquer tributo à democracia brasileira, que deu nova prova de vitalidade. Por fim, a presidente reeleita atropelou mais uma vez o PMDB e o Congresso com uma proposta de plebiscito para a reforma política.
O novo governo Dilma começou como não terminou: excesso de autoconfiança, promessa de partilha de cargos na Esplanada dos Ministérios, conflitos diários com o PMDB e indefinição sobre a política econômica.
O bicho de sete cabeças do governo de coalizão impõe sua agenda e o PT vai se afastando cada vez mais das ruas. A eleição deste ano comprovou que o preço nas urnas para esta política do umbigo pode ser alto, especialmente se legenda continuar tangenciando a questão do combate à corrupção.

Reforma
Carlinhos ficou decepcionado com o envolvimento de vereadores aliados com a candidatura de Aécio. Foi aconselhado a não retaliar e vai ampliar o espaço dos aliados

Conflito
Pezão é pressionado a elevar o tom das críticas ao governo paulista por conta do projeto de retirada das águas da bacia do Paraíba. A represa do Funil, está próxima do volume morto

Favorito
Com o apoio de Ortiz Junior (PSDB), o vereador Rodrigo Luis Silva, o Digão, é apontado como ‘barbada’ na disputa para presidir a Câmara de Taubaté contra Jofre Neto

O que une Carlinhos e Ortiz Junior?

A derrota dos candidatos governistas em São José e Taubaté nas eleições deste ano deveria estimular uma reflexão sobre o uso da máquina nas campanhas políticas.
Nas duas maiores cidades do Vale, o esforço pessoal dos prefeitos e o apelo pelo engajamento dos cargos de confiança na campanha não resultaram em votos. A votação plebiscitária idealizada para avalizar as administrações do PT e do PSDB em São José e Taubaté, respectivamente, redundou em rejeição implícita da maioria da população aos governos.
Por mais que a conjuntura política e a avalanche antipetista tenham influenciado as urnas em São José, é impossível dissociar o desempenho pífio de Amélia Naomi (PT) e Itamar Coppio (PMDB) de um balanço do governo Carlinhos. Ambos transformaram a agenda do governo Carlinhos em plataforma de campanha.
Desde junho, não houve um só evento oficial que não fosse utilizado, secundariamente, para promover as candidaturas governistas, especialmente a de Amélia.
Deu tudo errado. Amélia teve menos votos em São José do que em outras cidades. Itamar foi menos votado que em 2010, quando não dispunha de estrutura de governo ao seu lado. Por fim, a utilização da máquina sem nenhum pudor constrangeu petistas que passaram anos criticando o aparelhamento da prefeitura pelo PSDB.
Em Taubaté, a candidatura de Diego Ortiz foi pensada como “plano B” do clã Ortiz. Na eventualidade de qualquer impedimento legal envolvendo Ortiz Junior, a família que domina a política local há três décadas pretendia projetar uma nova liderança política.
Com o andar da carruagem, a candidatura de Diego também adquiriu contornos de plebiscito sobre a administração Ortiz Junior. O candidato e seu irmão colaram as agendas políticas. O governo vendeu a ideia de que era preciso um parlamentar com afinidade absoluta com o Palácio do Bom Conselho para garantir verbas e projetos para o município.
Deu tudo errado. A impopularidade do governo Ortiz Junior se impôs e, no meio da campanha, sobrou até para o senador eleito José Serra, alvo de hostilidades durante agenda de campanha na cidade. A votação ridícula obtida por Diego Ortiz, por fim, deve ter feito enrubescer o patriarca, Bernardo.
Carlinhos e Ortiz Junior poderiam se unir em uma espécie de “terapia de governo”. Quase dois anos após a posse, a eleição fez o capital político que lhes restava se esvair. Apesar de algumas medidas administrativas positivas aqui e acolá, os dois prefeitos são encarados com aguda desconfiança pela maioria da população.
Em São José, as dificuldades políticas doe Carlinhos lançam sombras até sobre o eleitorado que o PT julgava cativo no município. A frentista de um posto onde abasteço meu carro regularmente há 12 anos sempre votou no PT. Este ano, mudou de lado e incorporou um discreto adesivo de Aécio Neves e Eduardo Cury ao uniforme. “Quero ver o PT varrido. Votei no Carlinhos, mas não acredito mais nesse partido.”
O depoimento, curto e grosso, dá uma ideia do desafio gigantesco de Carlinhos nos próximos dois anos.

Puxão de orelhas
Em reunião da executiva do PT, o ex-presidente Lula puxou a orelha dos prefeitos petistas de São Paulo onde Dilma foi mal. A avaliação é que prefeitos expuseram a presidente ao crivo das gestões municipais

Sucessão
O DEM sai mais forte na sucessão para a Câmara de São José, após as eleições. Jorley Amaral planeja costurar o apoio de Hayashi e Robertinho da Padaria ao seu bloco

Novos projetos
Deixo o dia-a-dia da Redação para me dedicar a projetos no terceiro setor nos próximos dois anos. É oportunidade para entender melhor as novas demandas da população

A nau dos insensatos

Estamos a sete dias das eleições. Quaisquer que sejam os resultados da votação em 5 de outubro, acredito que caminhamos para tempos sombrios, com a escalada da insensatez pelo país. Os derrotados vão aceitar o resultado das urnas? Não acredito. Haverá uma trégua na onda de agressões verbais e de denuncismo? Duvido.
Em tom de ironia, sugeri a uma colega mais radical, outro dia, que ela deveria lançar uma campanha pela independência de São Paulo. Brinquei que, para seguir cegamente as diretrizes políticas do Jardim Europa, só restava esta “solução final”.
Minha amiga vestiu a carapuça: em vez de se diferenciar em relação ao ideário obtuso dos Jardins, desancou a suposta falta de consciência política dos nordestinos e disse que, se a eleição fosse decidida por São Paulo, o país estaria melhor.
Se fosse um caso isolado, diria que é apenas uma expressão de preconceito, fantasiado de opinião política. Mas tenho familiares que pensam como a minha colega e muitos outros amigos, muitos bem formados e supostamente informados, que acreditam que a perdição política do Brasil está no Nordeste.
Então, está combinado: sairemos da eleição 2014 com o Brasil mais dividido do que nunca. De um lado, os “esclarecidos”. De outro, os supostamente”ignorantes” seduzidos pelas benesses do governo. É a versão política da desgraça econômica da Belíndia.
Historicamente, quem tira proveito desta radicalização é o governo. É possível conduzir os processos eleitorais na base do “nós contra eles” e tocar “terror” nas campanhas adversárias, que gastam seu tempo apagando incêndios.
No caso da sucessão presidencial, já houve ‘emparedamentos’ similares nos últimos oito anos. E boa parte da oposição não aprendeu: continuou a falar exclusivamente para os habitantes dos Jardins.
“É incrível, né?” Assim Aécio Neves resumiu na última semana sua perplexidade diante da liderança de Dilma nas pesquisas de intenção de voto. “Uma hora, isso vai deixar de acontecer. É uma vergonha o que está acontecendo no Brasil.”
Quem é o equivocado dessa história? O eleitor ou o político? O que fez Aécio nos últimos quatro anos para consolidar um projeto político para a oposição e conquistar o apoio desta parcela da população que agora o deixa tão perplexo?
A uma semana da eleição, mesmo a propensa terceira via de Marina parece ter enveredado de vez pela trilha da vassourinha udenista de Jânio Quadros, que fez a alegria dos mesmos Jardins em outros tempos.
Na labuta desde 1994, acompanhei muitas eleições de dentro da redação de um jornal. Confesso: em matéria de debate político, acho que evoluímos muito pouco e caminhamos para uma radicalização de posições que não fará bem ao país.
De minha parte, tomo emprestado e embaralho as palavras de Drummond, em seu posfácio à edição de “A Rosa do Povo” –num momento em que o socialismo real revelava a sua face mais cruel.
Ao longo de todos estes anos, muitas ilusões feneceram, mas o sentimento moral não mudou –e o esforço foi sempre na busca de um país melhor.

Fogo amigo
Militantes do PT em São José protocolaram recurso contra a propaganda eleitoral casada de Amélia Naomi (PT) e Itamar Coppio (PMDB). O grupo diz que iniciativa fere o artigo 227 do estatuto do partido

Adesão geral
Os três prefeitos do PMDB no Vale devem engrossar ato de apoio à reeleição de Alckmin. A reunião esta semana tem alcance estadual e pode ser a pá de cal na candidatura de Skaf

Casas de Marina
Pensadas para incentivar a militância voluntária, as ‘casas de Marina’ mudaram de cara. Em São José, até pontos comerciais recebem os banners que identificam as casas

Duelo entre as herdeiras de Lula

Marina e Dilma não têm o mesmo DNA político, mas beberam na mesma fonte durante muitos anos. Muito mais Marina do que Dilma.
Durante 24 anos, a história de Marina se confundiu com a história do PT. Herdeira do mito de Chico Mendes, a ex-senadora simbolizava o compromisso do partido com a causa ambiental. Em 2003, sua escalação como ministra do Meio Ambiente foi saudada em todo o mundo como um sopro de esperança para a Amazônia.
Na prática, Marina pouco pôde fazer. Quando a realpolitik de José Dirceu se impôs aos sonháticos de toda ordem que havia no partido, Marina virou apenas um troféu bonito na equipe de Lula, incapaz de mudar as situações de desequilíbrio ambiental espalhadas pelo país.
Quando Marina pediu para sair, virou traidora. O petismo, desde muito, não suporta defecções e trata como inimigos mesmo os que são expulsos por exigirem coerência ideológica.
Dilma precede Marina e o PT. Sua história se confunde com a história da militância de esquerda brasileira contra a ditadura militar.
O modelo de Dilma era Brizola e foi no PDT que ela reconstruiu sua militância política, após a redemocratização. Por isso, não eram poucos os petistas que consideravam a presidente uma neófita.
Pelas mãos do ex-governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, Dilma tornou-se uma defensora ardorosa do PT ao longo do governo Lula e em sua gestão, para o bem e para o mal, radicalizou propostas defendidas pela legenda, especialmente na área econômica. Mesmo assim, a presidente é encarada com desconfiança absoluta pela maioria do petismo. Um amigo meu, militante histórico do partido, resumiu assim a tarefa eleitoral da legenda: “temos que eleger a Dilma, torcer para os próximos quatro anos passarem rápido e garantir o Lula em 2018″.
Se nenhum fato novo extraordinário ocorrer nos próximos 20 dias, Dilma e Marina devem disputar o segundo turno da eleição presidencial. Duas mulheres, duas herdeiras, cada uma a seu modo, da herança política de Lula.
No caso de Marina, nesta nova etapa, muitos vão tentar compreender, como diz Eliane Brum, por quê os Silva são tão diferentes. E talvez descubram que Marina sugere uma transversalidade na esfera pública para a qual o país (ou boa parte de seus eleitores) ainda não esteja preparado. Daí o sucesso do discurso do medo em voga atualmente.
No caso de Dilma, o segundo turno será a prova de fogo para o lulismo. Já se sabe que Lula vai assumir as rédeas da economia e definir as diretrizes políticas no do novo governo. Mas qual será a estratégia da campanha governista para restabelecer a ponte com a classe média que passou a odiar o PT?
Diz-se que Dilma foi a algoz de Marina no ministério de Lula, impondo a prioridade para novas hidrelétricas e avalizando o apoio ao agronegócio. Naquela época, de um modo pragmático, o país gradativamente foi seduzido pela promessa da inclusão social pelo consumo. Agora, Marina pode ser a algoz do governo Dilma, defendendo uma nova agenda para o país.
Façam suas apostas.

Kit escolar
O governo Carlinhos diz não ter concluído a pesquisa sobre o material escolar feita com os pais. A renovação do processo de compra, no entanto, já está pronta para ser disparada

Conexão BR
Por intermédio dos partidos, candidatos a deputados da região recebem doações de empreiteiras envolvidas no escândalo da Petrobras. Não há restrição de siglas

Matemática
Saiu uma nova estimativa de redução da bancada paulista do PT na Câmara dos Deputados: de 17 para 12 vagas. É mais um complicador para eleição de Amélia Naomi em São José

Uma presidente para chamar de sua

Não importa quem vai para o segundo turno: a eleição presidencial já tem um vencedor. Ele é um aliado de primeira hora dos tucanos, desde o governo FHC. Mandou e desmandou no governo Lula, desde a “Carta ao Povo Brasileiro”. Agora, feito inédito, estabeleceu um pacto pré-eleitoral com os três candidatos “competitivos” na disputa pelo Planalto.
O mercado financeiro não tem como perder em 2015. Seu candidato preferido era Aécio. Sua paixão do momento é Marina. Sua aversão por Dilma é notória, mas possui o aval de Lula para surfar sem riscos a partir de 2015.
Nos dois mandatos de Lula, os bancos registraram recordes de lucros consecutivos. A “extorsão” legalizada de clientes permaneceu inalterada. O aumento da renda média da população e o impulso ao consumo permitiram que as instituições atravessassem, sem sobressaltos, o furacão de 2008.
Com o governo Dilma, houve um abalo na relação política com o mundo financeiro quando o Planalto impôs uma trajetória acelerada de redução de juros. A banca reclamou da suposta ingerência no Banco Central. Os fundamentos da economia brasileira passaram a ser questionados.
<CW-4>Nada disso abalou, naturalmente, o cofre dos bancos. O Itaú lucrou a cifra recorde de R$ 15,6 bilhões em 2013. O Bradesco, R$ 12 bilhões. E nada disso abalou a amizade de Lula com os banqueiros. Emílio Botín, chefão do Santander, emprestou até um jato para que o ex-presidente se deslocasse em viagens pela Europa.
Na campanha de 2014, Lula é o fiador de Dilma junto ao mercado financeiro. Quando o ex-presidente esbravejou contra relatórios eleitorais do Santander, a encenação fez ferver o sangue da militância mais tosca. Tolice: o puxão de orelhas tinha outro significado, algo como “não boicotem a reeleição porque a relação de Dilma com o mercado vai melhorar”.
No campo da oposição, a autonomia política de Aécio foi devorada simbolicamente pela sua fixação com o mercado financeiro. Sua mensagem mais expressiva à opinião pública, a “nomeação” de Armínio Fraga para a Fazenda, confirmou o óbvio: o primeiro tributo de seu governo seria rendido aos financistas.
Com Aécio prometendo um casamento sem votos, o mercado volta suas atenções para a “namoradinha do Brasil”. O affair com Marina começou timidamente, ainda em 2010. Agora, as declarações públicas de amor são mútuas, com promessas de regalos antes incompatíveis com a biografia da ex-senadora acreana.
Escudada por herdeira do banco Itaú, Marina faz juras diárias ao mercado. Logo no início da campanha, prometeu independência para o Banco Central, arrepiando os últimos fios de cabelo de Roberto Amaral. Rezou publicamente o catecismo da austeridade e das metas de inflação. Por fim, para fisgar de vez o noivo, sugeriu prioridade aos bancos privados em nova política de estímulo ao crédito.
Nem precisava tanto. O mercado dormiu com Aécio e “marinou” logo após a morte de Eduardo Campos. Cheio de gatos escaldados, no entanto, não desgruda os olhos de Lula, que pode ser o fiel da balança agora ou a partir de 2015.

Voto útil?
O candidato a vice de Alckmin, Márcio França, avalia ofensiva no interior do Estado para pregar ‘voto útil’ ds tucanos em Marina Silva. Pode ser a pá de cal da candidatura Aécio

Zoneamento
Insatisfeitos com os rumos da nova lei de zoneamento, Vítor Chuster e Marco Aurélio Angeli, o Macumba, deixaram cargos de confiança na Secretaria de Planejamento de São José

CEI da arena
A ação judicial de Eduardo Cury contra Carlinhos e a prefeitura vai ‘esquentar’ a CEI da Arena. Governistas querem que Cury explique à Câmara o pedido de manutenção da Recoma

Agosto é mês de cachorro louco

Agosto é mês de cachorro louco. Era isso o que o meu pai dizia toda vez que chegava o mês da ventania e a gente tinha que enfrentar a escuridão e o frio da madrugada para trabalhar.
Uma noite, quando meu pai estava na cidade, um de nossos cachorros, começou a uivar de forma estranha, preso à corrente por orientação do veterinário. Meu irmão mais velho abriu a porta da copa e desceu a escada que dava para o quintal da fazenda. Eu, minha mãe e minha irmã mais nova ficamos nas janelas, observando à distância. Então, quando meu irmão se aproximava do riacho onde havíamos improvisado um canil, o cachorro arrebentou a corrente, passou por suas pernas e subiu a escada para invadir a sede da fazenda, aproveitando que a porta ficara aberta.
Foi um “Deus nos acuda”. Corri para o quarto, subi no beliche. Minha irmã ficou na sala, viu o Ike avançar rosnando e foi salva pela minha mãe, que a colocou em cima da mesa enquanto ralhava com o cachorro. Por fim, o Ike correu para a copa e ali se deixou abater debaixo da mesa, prolongando os uivos lancinantes noite adentro.
O surto de raiva na fazenda em Minas ficou para sempre marcado na memória como um dos episódios mais tristes de minha infância.
Hoje, quase 40 anos depois, posso dizer novamente que agosto é o mês dos cachorros loucos. Só que eles, agora, são de natureza humana, e estão entrincheirados nas fileiras dos partidos que disputam a Presidência da República.
É gente que não suporta uma crítica aos seus candidatos e enxerga todas as notícias adversas como conspirações de inimigos. Eles utilizam as redes sociais para destruir reputações, destilar preconceito e disseminar boatos. Eles acreditam que o mundo vai acabar depois de 5 de outubro se o candidato de sua preferência não vencer as eleições .
Fui vítima dessa gente. “Cachorros loucos” ligados ao PT me chamaram de “buldogue fascista” depois que apontei a mesmice dos programas de governo e disse que Dilma é uma espécie de “Pollyana” instalada por Lula no Planalto. Os raivosos do PSDB, por sua vez, ficaram revoltados com as críticas que fiz à mediocridade do terceiro mandato de Alckmin.
Tenho amigos no PT e no PSDB. Não imagino perdê-los por conta de uma disputa eleitoral e não planejo me furtar à análise dos cenários políticos para não ofender quem me lê com a lupa do preconceito.
E, no entanto, essa eleição caminha de um jeito que o ar envenenado parece prestes a nos sufocar. Nas ruas, nos bares, nos ambientes de trabalho, tudo é reprodução simétrica da virulência da internet. Nem mesmo a morte trágica de Eduardo Campos mudou o rumo dos acontecimentos –nas redes, as teses conspiratórias e as provocações não fizeram luto.
Não quero viver em um país de cachorros loucos. Antes que o caldeirão de ódio transborde, o país precisa salvar o que há de mais sagrado na democracia, que é o respeito à alteridade, consagrado pela ferramenta do voto. Há quem acredite que a morte de Campos possa elevar o nível do debate político no país, em sinal de reverência à sua memória. Será?

Volta Lula
O ex-presidente Lula avalia os efeitos da entrada de Marina na sucessão presidencial. Ele já teria avisado: se a ex-senadora ameaçar PT, entra em campo em setembro, no lugar de Dilma

Fator Balieiro
A sucessão da Câmara de São José passa pelos planos de Carlinhos para o secretário Wagner Balieiro. Para muitos, ele é aposta do prefeito para comandar o Legislativo

Voto antipetista
A receptividade ao nome de Eduardo Cury na disputa pela Câmara Federal surpreende
até seus aliados políticos. A avaliação é que ele galvaniza o “sentimento” anti-PT

Quem vai querer ‘picolé de chuchu’?

O governador Geraldo Alckmin é favoritíssimo na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Segundo o Ibope, tem 50% das intenções de voto, mais o que dobro da soma de seus adversários.
Com a reeleição de Alckmin, o PSDB está prestes a conquistar um feito improvável: manter o controle do Estado mais rico do país pelo período ininterrupto de quase um quarto de século.
O sucesso de Alckmin é um fenômeno eleitoral. A falta de carisma do tucano é tão proverbial que ele ganhou o apelido de “picolé de chuchu”. Seus discursos são uma repetição de chavões e de historinhas provincianas. Seu terceiro mandato vai pouco além do medíocre, com promessas cumpridas pela metade e uma equipe apinhada de secretários sem expressão política ou capacidade gerencial. Seu plano de governo tem a platitude de um deserto de ideias.
Desgastado pela crise hídrica, pelo fantasma do cartel de metrô e pela violência, Alckmin seria, nos manuais dos marqueteiros, um candidato quase inviável. Mas por quê o tucano faz seus adversários comerem poeira?
A reação mais banal é denunciar o conservadorismo do eleitor paulista. Outra análise recorrente é de que Alckmin triunfa porque seus adversários são muito ruins.
São mantras fortes, mas insuficientes para explicar o sucesso de Alckmin. Por quê o eleitor paulista descarta mudança no Palácio dos Bandeirantes com um cenário mudancista no restante do país e no plano nacional? Por que a fadiga de material do PSDB não cola na imagem do governador?
Avalio que há outros fatores em jogo. Primeiro, a percepção de que Alckmin encarna o “antipopulismo” e o avesso da “espetacularização” da política, fenômenos que já renderam votos no país, mas hoje assustam boa parte do eleitorado. Em contraponto a Dilma, o tucano tem uma admirável capacidade de vender sua imagem como “gerentão”.
O segundo fator é o antipetismo. São Paulo promete ser um
“osso” para a reeleição de Dilma, com a rejeição à presidente batendo na casa dos 47%. Metade do eleitorado de São Paulo deseja tudo, menos o PT à frente do Palácio dos Bandeirantes. Adversário contundente de Lula em 2006, Alckmin colhe os frutos da tática suicida do PT de transformar em heróis os réus do mensalão.
Então, a força de Alckmin não é o que ele representa, mas o que ele jamais será. E não é questão de falta de opção: o eleitor alckmista tem convicção do que não quer.
Um quarto de século no poder é uma façanha e tanto. Na história das democracias modernas, o máximo que o Partido Conservador conseguiu foram 21 anos de poder ininterrupto na Inglaterra do século 19. Nos Estados Unidos, apenas no início da República, houve domínio equivalente de um mesmo grupo político.
Em São Paulo, houve o monopólio do PRP da República Velha, legenda de fachada em uma democracia de fachada. No Brasil atual, o paralelo está nas oligarquias do Nordeste.
São Paulo vai virar um Maranhão? Não acredito. Mas, em 2014, a alternância de poder tornou-se ferramenta irrelevante para o eleitor do Estado.

Sem esperança
Lideranças do PT na região já “jogaram a toalha” em relação à candidatura de Alexandre Padilha. A meta agora é evitar vexame em outubro, com pelo menos 20% dos votos

Foco de resistência
O bloco governista em São José está surpreso com a dificuldade em convencer o eleitorado de renda mais baixa em votar em Amélia Naomi, especialmente no “fundo da zona sul”

Nova direção
O vereador Carlos Alberto Macedo Bastos consolida a posição de favorito à sucessão de Amélia no comando da Câmara de São José. A costura é feita por Jorley Amaral

Vale o que está escrito?

O eleitor liberal ou “de direita” no Brasil precisa encontrar um candidato mais “confiável” para a presidência da República. Tratado como mera “dissidência” petista, Eduardo Campos (PSB) não é opção. Mas Aécio Neves (PSDB) vale a aposta?
Boa parte dos eleitores que antecipam a opção por Aécio em 5 de outubro acredita que o tucano vai acabar com o aquilo que classificam como proselitismo social do PT. Antes, porém, Aécio teria que rasgar o programa de governo que encaminhou à Justiça Eleitoral.
Está escrito.
Não adianta reclamar que o Bolsa-Família é esmola oficial, paga com dinheiro dos contribuintes. Aécio quer transformar o Bolsa- Família “em política de Estado, como direito permanente das populações mais vulneráveis social e economicamente”.
É não é só isso: o tucano quer incentivos adicionais para a famílias pobres que tiverem filhos concluindo o ensino fundamento e médio.
Não adianta se queixar da política de cotas e das bolsas integrais do Pró-Uni sob a alegação de que promove o ingresso de despreparados nas universidades. Aécio diz que é fundamental manter e aprimorar o sistema e o Fies.
E o que dizer do Minha Casa, Minha Vida? Muitos adversários do PT consideram escandalosos os critérios adotados pelo programa, que privilegia moradores de áreas de risco e ocupações irregulares. Mas está lá, escrito, no programa de Aécio: “manutenção e ampliação de programa nos moldes do Minha Casa, Minha Vida”, com “prioridade de investimento nas áreas de risco e assentamentos precários das metrópoles”.
E o famigerado “Mais Médicos”, tratado como importação de médicos cubanos a preço de banana para tirar o emprego dos brasileiros e ameaçar a Saúde da população? Não é que Aécio sugere manter e ampliar o programa? E tem mais: quer que o governo ofereça cursos para que os médicos estrangeiros possam fazer a prova do Revalida.
E tem muito mais: apoio à agricultura familiar e aos núcleos de agroecologia, estímulo aos movimentos afrodescendentes e LGBT, transformação da rede de enfrentamento à violência contra a mulher em programa de Estado. Mas, alto lá, este é um programa de governo do PSDB ou do PT ?
Se consideradas as raízes históricas do PSDB, seria apenas um caso de falta de criatividade. O problema é que a expectativa de parte do eleitorado tucano é antagônica aos compromissos sociais assumidos por Aécio. O que este eleitor quer é o fim do Bolsa-Família, e ponto final. Então, quem está se deixando enganar por quem?
Eu só acredito no Bolsa-Família como política transitória. Se a miséria é encarada como problema insolúvel e necessita de programa permanente, nosso fracasso enquanto Nação está consumado. Mas aí está Aécio defendendo a “esmola oficial” permanente para não afugentar o voto dos pobres.
Essa é apenas um das encenações que teremos pela frente, até 5 de outubro. A outra é protagonizada pelo petismo e pela ambígua figura da Pollyana instalada no Palácio do Planalto –o reino da fantasia onde até a inflação é´”manobra diversionista” da oposição.

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