A bonança e a tempestade

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração. Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil. E os olhos não choram.
E as mãos apenas tecem o rude trabalho.
E o coração está seco”.
Estamos fatigados, desesperançados. Nesses momentos sombrios, nossos ombros parecem suportar o mundo, dizia Drummond.
Mas é só isso o que nos resta esperar de 2016?
Se depender da análise dos comentaristas econômicos, este será mais um ano perdido. A inflação vai estourar o teto da meta, mais 3 milhões de trabalhadores vão perder seus empregos e o país vai retroceder mais dez anos.
Se depender da análise dos comentaristas políticos, este será mais um ano de crise e escândalos. Consumado ou não, o impeachment de Dilma vai consumir a agenda nacional.
A eleição municipal estará inevitavelmente contaminada pelos escândalos nacionais e pela aversão dos eleitores aos partidos tradicionais. E a perspectiva mundial? Mais pessimista, impossível. Os terroristas do EI vão espalhar seus homens-bombas pelo mundo (eis aí o exemplo triste de Istambul). A guerra contra o terror vai estimular, de modo nunca visto, a xenofobia na Europa. E a economia? Todos os países tremendo a cada suspiro da China.
Em tempos recentes, é difícil lembrar um cenário tão ruim para o Brasil. Mergulhamos em uma corrente caudalosa de negativismo, sustentada por revezes severos nas esferas política e econômica.
Os mais ricos, aquele estrato da sociedade que tira proveito mesmo das crises, voltaram a fixar residência no exterior, mantendo no país o hiperlucro de seus negócios.
A classe média passou a acreditar que o país deve sangrar, ignorando que suas próprias benesses se esvaem com o clima de guerra civil. A classe C se agarrou às pequenas conquistas que alguns anos de bonança lhe fiaram, sem perceber que talvez tenha sido apenas massa de manobra de uma elite política tão nociva quanto as que dominaram o país desde o primeiro Sete de Setembro da nossa história.
O Brasil de Dilma é um pouco esse nosso espelho: tudo o que imaginávamos que poderíamos ser e não somos, todas as frustrações revividas do subdesenvolvimento, todas as culpas expiadas pela infelicidade dos nossos votos.
Mas somos tão inviáveis e miseráveis assim? Ou será que temos interpretado de modo absolutamente errado a origem das nossas mazelas?
Quem procura enxergar além da bruma percebe que o Brasil simboliza apenas o que há de mais perverso no universo amplo do capitalismo tardio.
Então, mesmo sob essa perspectiva, 2016 será mais um ano perdido?
Parafraseando Drummond, deixemos de lado as mãos pensas. Pois, mesmo circunspecta, a máquina do mundo se abre majestosa, à nossa espera. E o que é possível fazer?
No maravilhoso conto Desenredo, Rosa ensina que o real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima.
Que tal pensarmos um pouco sobre isso?

Obituário
David Bowie terá sido assim tão essencial para a história da música ou deste subproduto chamado pop/rock? Ou terá sido apenas uma miragem em tempos áridos?

Obituário 2
Apreciava mais as histórias de Harry Porter que o meu filho. Me lembrava um pouco Huckleberry Finn e Oliver Twist. No cinema, no entanto, nada melhor que Alan Rickman

Pátria de chuteiras
O novo presidente da CBF recebe R$ 14,7 mil mensais do governo como anistiado político. Sua história, no entanto, é a de um aliado da ditadura militar

O futuro segundo Eduardo Cunha

A última semana foi agitada, em São Paulo e em Brasília.
Na capital federal, o deputado Eduardo Cunha (PMDB) cumpriu sua ameaça de vingança contra o PT e desengavetou o impeachment de Dilma, antecipando as previsões do fim de um governo que nem começou.
Em São Paulo, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) sofreu o seu pior revés político e se viu obrigado a suspender a reorganização de ensino após a polícia entrar em confronto com os estudantes nas ruas.
E a temperatura atinge o limite da combustão com as notícias cada vez mais pessimistas na esfera econômica, desemprego e déficit recordes, inflação nas alturas…
Quem se arrisca a fazer alguma previsão para 2016? O cenário não está fácil nem para os videntes mais ousados, como a controversa Neila Alckmin, que uma vez vaticinou, sem medo do ridículo, que Guilherme Afif seria eleito presidente.
Se Neila fosse viva, cravaria na posse de Temer e em Serra como “primeiro-ministro”? Ou apostaria em nova eleição, com impugnação da chapa Dilma-Temer, e Aécio e Marina como favoritos?
No campo da política, vivemos à beira do abismo do improvável e do incerto.
Outro dia, em debate com o ex-presidente Fernando Henrique, Marina criticou a ferocidade tóxica que moveu a oposição na busca pelo impeachment, contaminando não só o ambiente político, mas também o econômico.
Hoje, as condições para o impeachment estão dadas, com o encaminhamento do processo pelo presidente da Câmara.
Criou-se tamanho cenário de incerteza, no entanto, que mesmo os mais sedentos líderes da oposição não sabem qual o momento oportuno para afastar Dilma Rousseff.
Do ponto de vista do governo, a opção parece ser pelo tudo ou nada. Lula avisou Dilma que, se o Planalto não obtiver os 200 votos necessários para manter a presidente, não há governabilidade possível.
É uma queda de braço imprevisível, apesar de a oposição julgar que o apoio popular pode acelerar o impeachment de Dilma. Há que se considerar ainda os possíveis desdobramentos da Lava Jato, com mais ministros, governadores e parlamentares envolvidos no escândalo do petrolão.
Alguém põe as mãos no fogo por Michel Temer?
Resta, soberano, a figura de Eduardo Cunha, o patrono das práticas mais nefastas do Congresso com a pior avaliação da história recente do país.
Com uma bancada pessoal de mais de cem deputados e uma rearticulação política com a oposição, Cunha ganhou novo fôlego para sobreviver ao processo de cassação.
Nesta conjuntura, pode permanecer à frente da Câmara na condição de interlocutor preferencial de Temer, mandando mais que um eventual “primeiro-ministro” recrutado entre as hostes da oposição.
Depois de todos os escândalos e erros que foram cometidos durante as administrações do PT, este é o Brasil que vai dar certo? Duvido.
Se a desastrosa gestão de Dilma parece condenada à poeira da história, futuro e infortúnio se confundem à nossa frente, pelas mãos de Eduardo Cunha.

Poço sem fundo
Crise sem fim. Meu contador me disse que abriu só cinco empresas ao longo deste ano. E fechou outras 19, com um saldo de mais de 200 demissões. Por toda a parte, placas de aluguel

Vocações perdidas
Quais as lições da crise? São José deixou, há muito tempo, de ser uma cidade de vocação industrial. E está com a sua competitividade à prova no comércio e nos serviços

Enquanto isso
A guerra política em São José ganha contornos de plantão policial. São estes políticos que constroem, na base, o Brasil de valores invertidos que nós temos em Brasília

Marcos Meirelles
Jornalista. Escreve neste espaço aos domingos

A história que não se repete

Marx encerra o “18 Brumário de Luís Bonaparte” com uma profecia de alto risco: “quando o manto imperial cair finalmente sobre os ombros de Luís Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão ruirá do topo da Coluna Vendôme”.
O sobrinho de Napoleão consolidou o segundo império e reinou despoticamente por 18 anos. Ao contrário do que Marx previa, sua derrocada não veio de uma revolta do proletariado, mas da burguesia prussiana comandada por Bismarck.
Morreu no exílio, tal como o tio. Jamais alcançou ou conseguiu legar para posteridade um milésimo da glória do primeiro Bonaparte.
A melhor lição de Marx em “18 Brumário” é a percepção de que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob a circunstância de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.
Quem vive de passado é museu, dizia o velho ditado. Na política, infelizmente, isso é quase um ‘modus operandi’. Trata-se de ferramenta de legitimação de lideranças e também de retomada de ideias ultrapassadas.
No plano nacional, só para citar dois exemplos, revivemos os discursos do embate entre as hostes da supostamente “incorruptível” UDN e a “devassidão moral” da coligação PSD/PTB (quem duvida, que dedique algumas horas aos textos de Lacerda ou aos discursos dos demais integrantes da Banda de Música).
Pagamos o preço, além do mais, da inconsistência das propostas dos desenvolvimentistas inspirados em Celso Furtado e dos monetaristas herdeiros de Roberto Campos e Eugênio Gudin.
Misturo todas essas ideias em um caldeirão aparentemente sem sentido para refletir sobre a aparente inviabilidade do Brasil. A cada duas décadas, repetimos projetos de líderes e ideias que, depois de tragédias e farsas, nos entregam frustração e desesperança.
Somos uma das dez maiores economias do mundo, mas a crise obscurece novamente o futuro. Estamos vivendo, mais uma vez, um momento em que nos sentimos sem governo, sem líderes de confiança, sem esperança.
Concordo com Emanuel Fernandes, em seu último artigo, quando ele fala que perdemos o roteiro do desenvolvimento do país, presos à circularidade, crentes que governos, sozinhos, irão construir o futuro.
A boa política exige disposição para inovação, capacidade de apresentar propostas consistentes e de forjar novas lideranças, sempre dentro dos marcos institucionais e do ambiente democrático.
Em termos de construção do futuro, no entanto, o que se vê no período mais próximo, só para citar São José, está longe destas premissas.
A circularidade transformou o governo Carlinhos em uma espécie de repetição, meio trágica, meio farsesca, do governo Angela. A circularidade faz o PSDB joseense girar em torno de si mesmo, como peru de véspera, sem nenhuma compreensão dos desafios do futuro. E esta mesma circularidade alimenta projetos burlescos de terceira via, de gente que sempre se fez à sombra do poder.

Opção preferencial
O ex-secretário de Transportes de São José Anderson Ferreira é a opção preferencial do PSDB para a disputa da prefeitura em 2015. É mais um “tiro no escuro” dos caciques tucanos

A conta não fecha
Carlinhos Almeida (PT) acredita que pode equilibrar a disputa em 2015 com overdose de propaganda do governo. O que fazer, no entanto, para equilibrar as finanças?

Égide da crise
O cenário das prefeituras para 2016 é desolador. Vai faltar verba para pagar funcionários e dificilmente novas obras e projetos vão sair do papel. A eleição será sob a égide da crise

Eleição curta, políticos presos ao passado

Qual será o papel das redes sociais nas eleições de 2016?
Com a minirreforma eleitoral sancionada pela presidente Dilma Rousseff, os políticos estão em palpos de aranha. O tempo de campanha no próximo ano vai encurtar (início em 16 de agosto) e o horário eleitoral gratuito de rádio e TV terá apenas 10 minutos diários de duração (antes eram 30 minutos).
Candidatos a vereador não vão mais alternar o horário eleitoral com os postulantes à prefeitura. Suas aparições ficam restritas às inserções/spots ao longo da programação diária das emissoras de rádio e TV.
Candidatos a prefeito terão um tempo curtíssimo para expor suas propostas, afetados também pelo “desvio de foco” prometido pelas Olimpíadas de 2016. Neste cenário adverso, os especialistas em marketing afirmam que o desafio dos candidatos é fortalecer a pré-campanha, valendo-se da flexibilidade assegurada pela nova legislação e do potencial estabelecido pelas redes sociais.
A nova lei permite que pré-candidatos exponham suas propostas e compartilhem suas ideias com eleitores em eventos públicos e partidários. Acabam também restrições para exaltação de qualidades pessoais dos pré-candidatos e para pedidos de apoio político.
Com as limitações impostas para o financiamento das campanhas e dos fundos partidários, portando, largam com vantagem acentuada aqueles que souberem utilizar as redes sociais para interagir com os eleitores e construir “marcas” e “mensagens” para a disputa eleitoral propriamente dita.
Em 2016, além do mais, espera-se o fortalecimento de outras redes sociais, como Instagram e o os grupos de WhatsApp, em razão da necessidade de filtros para a poluição de contra-informações do Facebook e de ferramentas mais ágeis de alcance do público-alvo.
O principal problema é que os políticos ignoram o potencial das redes sociais e continuam utilizando essas ferramentas como instrumentos de promoção pessoal.
O sujeito vai a uma festa de bairro e depois aparece no Facebook em fotos e vídeos beijando crianças e idosos, vendendo pílulas de popularidade para um público que é bombardeado diariamente, no mesmo canal, por mensagens questionando o velho “fazer político”.
É um círculo vicioso, que só pode se superado com novas ideias e posturas, com uma práxis baseada nos pilares da transparência, inovação, interação e engajamento.
Outro equívoco frequente é supor que os candidatos devem entrar na onda das “prefs”, as páginas vinculadas a prefeituras que exploram piadas, memes e emoticons, seguindo o modelo adotado inicialmente por Curitiba.
Leveza no debate das propostas será sempre bem-vinda, mas conteúdo é essencial.
Quais políticos da nossa região estão preparados para encarar esses novos desafios? A julgar pelo estéril debate pré-eleitoral, contaminado por discursos e conchavos ultrapassados, quase nenhum.
Virou lugar-comum a avaliação de que os políticos nunca estiveram tão desgastados. As redes sociais estimulam essa rejeição e desafiam os políticos a inovar seu discursos.

PT versus PT
Com todas as dificuldades enfrentadas por Carlinhos, Wagner Balieiro e Amélia Naomi conseguiram tumultuar ainda mais o governo com divergências pessoais

Fator Emanuel

Emanuel instiga os tucanos, mas mantém distância calculada. A menos de um ano da eleição, o PSDB corre risco de,  novamente, ter que “construir” um nome em São José

Plataforma do gogó
As forças políticas que se julgam diferentes usam mesmas armas e artimanhas do PT e PSDB em São José. Acreditam que podem viabilizar a terceira via no “gogó”

É preciso sonhar, mesmo que a sopa esfrie

Nenhum desejo neste domingo, nenhum problema nesta vida, o mundo parou de repente, os homens ficaram calados, domingo sem fim nem começo”.
Estes versos são do “Poema que não aconteceu”, do primeiro livro de Drummond, “Alguma Poesia”.
Pensei neste livro para escrever o artigo deste domingo porque nele estão alguns dos poemas que mais me marcaram, como “Infância”, “Quadrilha”, “Anedota Búlgara” e o “Poema das Sete Faces”.
Pensei neste livro e no mestre de Itabira como antídoto para nossa histeria coletiva.
Sem nenhuma poesia, as polêmicas alimentadas pelas redes sociais embrutecem e disseminam ignorância pelo país. Vivemos o tempo da negação de tudo, de todos, e, especialmente, do outro.
A dialética idealizada por Hegel está morta. Não é um privilégio brasileiro, mas nossa sociedade iletrada potencializa o viés da incompreensão.
Vivemos um tempo em que o conceito de família pode ser determinado pela vontade profética de um Eduardo Cunha, sustentada pela legião homofóbica de seus seguidores nas redes sociais.
Vivemos o tempo da celebração digital da violência, com gangues agendando confrontos via Whatsapp.
Os arrastões nas praias da zona sul do Rio de Janeiro e a reação de “justiceiros” se repetem, periodicamente, desde o início dos anos 90.
Agora, no entanto, tudo está devidamente registrado e programado em vídeos e imagens nas redes sociais.
Vivemos no mundo do “feijão assassino”, em que infestação de um suposto parasita dissemina o boato da morte de dez pessoas no interior de São Paulo e provoca uma corrida aos supermercados em busca de um vinagre “miraculoso”.
Você acha que está bem informado com postagens que recebe diariamente via Facebook?
Infelizmente, essa é a avaliação da maioria dos usuários desta e de outras redes sociais. Deixemos de lado, no entanto, a virulência do mundo digital.
Nossa desesperança é ainda mais profunda. Estamos convencidos de que o Brasil não tem mais jeito, vamos mergulhar em depressão profunda, corroídos pela corrupção e pela inépcia de nossos governantes. Em Brasília, o desgoverno nos assombra com mais e mais notícias ruins.
No Congresso, vossas excelências nos brindam diariamente com a absoluta falta de compromisso com o futuro do país.
Vivemos um tempo de bonança e evoluímos muito pouco com ele. Diligentemente, nos acostumamos à ideia de que o Estado tudo provém e nada nos faltaria.
Temos duas opções: ou nos entregamos ao pessimismo absoluto ou procuramos nos reinventar, individual e coletivamente. Para isso, novamente, acredito que sempre vale uma dose de distensão e poesia.
Retomando Drummond, cito os versos finais de “Sentimental”: “Está sonhando? Olha que a sopa esfria! Eu estava sonhando… E há em todas as consciências um cartaz amarelo: ‘Neste país é proibido sonhar’.”
A maioria dos usuários da rede acredita, infelizmente, que sim. Na esfera política, estão embrutecendo e disseminando ignorância pelo país.

Bate-cabeça
Carlinhos Almeida conseguiu produzir mais uma agenda negativa para seu governo ao anunciar que iria restringir o horário de funcionamento da prefeitura e depois recuar

Janela antipetista
A sanção da minirreforma eleitoral abre nova janela para dissidências petistas. Em São José, especula-se até a possibilidade de Carlinhos deixar o PT e ingressar no PSD

Eleição curta
A minirreforma encurta campanhas e favorece prefeitos candidatos à reeleição. A restrição para as doações empresariais, idem. Problema aversão recorde aos políticos

O indecifrável pós-Dilma

A julgar pelas manchetes dos jornais e os noticiários da TV, a queda de Dilma Rousseff parece uma questão de tempo.
Existem 14 pedidos de impeachment encaminhados à Câmara, o último deles protocolado pelo ex-petista Hélio Bicudo.
Com o agravamento das condições econômicas do país e a abertura de processo contra o ex-tesoureiro de campanha de Dilma, o agora ministro Edinho Silva, a oposição se vê com a faca e o queijo nas mãos.
O PSDB diz que já conseguiu angariar 280 votos favoráveis ao impedimento da presidente, de um total de 342 necessários para o afastamento da presidente.
O vice-presidente Michel Temer já fala como pacificador da Nação, o pretenso líder da união nacional.
Setores mais afoitos da oposição, inclusive do PSDB, já preparam o ingresso em um eventual governo do PMDB, pavimentando uma transição para 2018.
O fracasso político de Dilma é irrefutável. Hoje, sua queda parece interessar até mesmo ao ex-presidente Lula, cansado de carregar o fardo de um poste incapaz de promover qualquer entendimento político e cercado de aloprados no Palácio do Planalto, como Mercadante e Berzoini.
Não acredito que Dilma esteja pessoalmente envolvida em escândalos de corrupção. Mas impeachment é decisão política e, parafraseando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, torna-se inevitável quando passa a ser indiscutível.
E o que será do país no pós-Dilma Rousseff?
Temo que ninguém na oposição saiba responder a esta questão.
Temer teria coragem de mudar a desastrosa política econômica e afastar Joaquim Levy? Como explicar tais medidas, no entanto, se o receituário do ministro é o mesmo defendido por Aécio durante a campanha eleitoral de 2014?
Serra seria o FHC de Temer, lembrando os tempos de Itamar? Haveria condições políticas, no entanto, para que o governo imponha uma agenda de reformas que contrariam frontalmente os interesses daqueles que terão ajudado a afastar Dilma?
Sem as reformas tributária, política e do Judiciário, todos os avanços do Brasil nos últimos 30 anos terão sido em vão.
O governo Dilma postergou esse debate acreditando que poderia continuar surfando na onda do incentivo ao consumo e do descontrole de gastos públicos. Pagou um preço elevado.
Quem quer que assuma a condução do Planalto, estará sujeito às mesmas amarras. E com o PT de volta à oposição…
E como vão se portar os líderes do pós-Dilma? Com obediência cega à cartilha das agências de classificação de risco, como mandam os banqueiros?
Com o desmanche das estruturas sociais que os liberais acusam de inviabilizar o Estado brasileiro? É o mais provável.
Não acredito que alguém tenha coragem de mexer o alçapão da dívida pública, que consome quase um terço dos impostos que pagamos.
Não acredito que alguém consiga promover um novo pacto federativo, reconhecendo o papel dos Estados e, principalmente, dos municípios na promoção da cidadania.

Que mundo é este?
As agências de classificação de risco selam o destino dos países com só um selo, uma nota. É bom lembrar atuação temerária dessas agências na origem da crise mundial de 2008

No mesmo barco
Prefeituras com dificuldades para pagar 13º, Estados com obras paradas. O déficit não é só de Dilma. A cartilha obtusa de Levy enxugou receitas de todos os entes da Federação

Rota do desastre
Não bastassem os juros estratosféricos, Levy fala em elevar ainda mais os impostos no Brasil. Este mesmo roteiro levou Portugal e Espanha à recessão prolongada

Marcos Meirelles
Jornalista Escreve neste espaço aos domingos

O BRT de Carlinhos é um malogro

Com custo estimado em R$ 814 milhões, o BRT de Carlinhos Almeida caminha, de modo célere, para se tornar a versão joseense do Trem-Bala. Ou seria melhor trem-fantasma?
O projeto que nasceu como a principal proposta do prefeito para o transporte coletivo patina desde sua concepção enviesada, quando a administração petista considerou inviável a meta de um VLT e, da noite para o dia, trocou o projeto inicial pelo BRT.
Dois anos e meio depois, mesmo esse BRT mais “econômico e prático” é apenas uma miragem alimentada pela propaganda petista.
A licitação foi adiada várias vezes e agora enfrenta um cenário temerário de retração econômica, corte nos financiamentos do governo federal e queda acentuada na receita da prefeitura.
Alguém acredita que algum trecho do BRT vai sair do papel antes do fim do mandato do prefeito?
Pelo andar da carruagem, é improvável que Carlinhos consiga entregar um mísero quilômetro de BRT antes de deixar o Paço. E estamos falando de um projeto que prevê nada menos que 51 quilômetros de corredores exclusivos para os ônibus em São José!
Por enquanto, corredor exclusivo de ônibus em São José só existe na prancheta maluca dos técnicos (?) da Secretaria de Transportes que conseguem, com uma canetada, a proeza de reduzir para meia pista o fluxo de veículos na Avenida dos Astronautas, principal via de acesso à Embraer.
Sem sair do papel, no entanto, o BRT já representa gastos consideráveis para a gestão Carlinhos Almeida.
Em abril deste ano, a administração contratou a Fusp, fundação ligada à USP, para elaborar o projeto executivo do BRT. Por se tratar de fundação, o contrato foi firmado sem licitação, por R$ 12 milhões, sob alegação de notória especialização. Em apenas três meses, os desembolsos para a fundação somaram R$ 6 milhões, verbas que seriam correspondentes aos estudos já concluídos, como o projeto básico entregue à Caixa.
Quer dizer que, em apenas três meses, os técnicos da Fundação elaboraram um projeto básico avaliado em R$ 6 milhões? E qual terá sido a decisiva participação da Electromagnetics, empresa registrada em nome da filha e do diretor da Fusp, na elaboração desse projeto básico? Sabe-se agora, graças a investigações do Ministério Público, que esta firma, terceirizada pela Fusp, abocanhou R$ 546 mil do contrato celebrado por Carlinhos.
Tudo isso nos faz lembrar, evidentemente, os gastos de mais de R$ 1 bilhão do governo federal com o Trem-Bala, aquele que jamais sairá do papel.
O trem não existe, mas a EPL, estatal criada originalmente para gerenciá-lo, está aí, em pleno funcionamento, com quase 200 funcionários regiamente pagos com os nossos impostos. Será que Carlinhos Almeida pretende criar uma versão joseense para a EPL? Vem aí a BRT São José?
Não há dúvida de que São José merece um modelo de transporte coletivo mais avançado e decente. O problema é que o BRT de Carlinhos virou apenas uma grife de governo, com a devida assinatura de um arquiteto famoso.

 

Memória
Quem incrimina os eleitores do PT os tratam como ignorantes ou malfeitores. Condenam a democracia. Mas, e aqueles que, em 1998, tanto acreditaram na reeleição de FHC?

Nosso DNA
Somos patrimonialistas, preconceituosos e antidemocráticos. É nossa espinha dorsal. Não me surpreende o ódio nos cartazes de protestos ditos democráticos

Pobre viúva
Devemos agradecer aos abutres petistas a façanha de nos devolverem a consciência terceiro-mundista? A ganância de Dirceu & Cia é a síntese de uma nação às avessas

Um governo acuado pela falta de discurso

Acuado pela Câmara de São José dos Campos e pelos baixíssimos índices de popularidade, o prefeito Carlinhos Almeida (PT) dedica-se agora ao exercício na novilíngua, o duplipensar de George Orwell.
No único palanque que ainda lhe resta, a participação nos programas de rádio assegurada indiretamente pelas verbas de publicidade do governo municipal, o prefeito disse temer, na última semana, que o debate da Lei de Zoneamento se torne “questão de política por política”.
Aqui um parêntesis que se faz necessário.
É preciso admitir que Carlinhos não é o único a valer-se dos microfones das rádios da cidade para promover a interlocução com a população em momentos de desgaste político.
Em diferentes momentos, os ex-prefeitos Angela Guadagnin, Emanuel Fernandes e Eduardo Cury utilizaram o mesmo expediente.
Nenhum deles, no entanto, chegou ao estágio de impopularidade do petista, nem mesmo Angela.
Voltando à questão do Zoneamento, no entanto, impressiona a disposição com que um governo tão desgastado politicamente se propõe a promover o enfrentamento com a Câmara em um tema tão delicado e a menos de um ano e meio do fim do mandato.
Em nome do “desenvolvimento da cidade”, este governo de maioria frágil na Câmara reafirma que vai atender as demandas daqueles que, desde o início, pressionaram enormemente a administração petista para flexibilizar o zoneamento.
E o que o prefeito espera deste processo?
Que os vereadores abdiquem do seu poder de pressão e de barganha e aceitem, sem questionamentos, o projeto enviado pela prefeitura? E se o projeto petista representar a volta do conceito flexível de zoneamento que gestou o Jardim Aquarius, no primeiro mandato de Emanuel Fernandes? Como fica a práxis petista? Sai de cena a “política pela política” e entra o “tudo pelo desenvolvimento”?
Em tempos de crise econômica, especialmente, a situação se torna ainda mais delicada.
Para muitos, é preciso potencializar e reduzir os riscos dos investimentos, reduzir recuos, eliminar as restrições para o comércio e multiplicar o coeficiente de aproveitamento dos terrenos.
As cidades são dinâmicas e é um erro tolo supor que podemos engessá-las ou emoldurá-las com base em cenários destituídos de pessoas, como muitas vezes fizeram Le Corbusier e até mesmo Oscar Niemeyer.
Sem regras de expansão e ocupação urbana, no entanto, elas se inviabilizam completamente e transformam a qualidade de vida em discurso vazio na boca dos políticos.
Pelo cronograma desenhado pelo governo Carlinhos Almeida, a nova Lei de Zoneamento só deve chegar à Câmara no final do ano. A votação, propriamente dita, fica para 2016. A pergunta que não quer calar é a seguinte: faz sentido para uma cidade com o porte e a importância econômica de São José travar um debate desses em pleno ano eleitoral?
Deixa pra lá.
No universo petista joseense, isso já virou mais um “crimethink”…

Corda de enforcado
A LRF foi criada em momento de expansão econômica do país. Agora, virou corda no pescoço de prefeitos de norte a sul do Brasil, todos com as receitas em franca decadência

Sem manobra
Representantes de cidades polos, como Curitiba e Teresina, defendem que é preciso mais flexibilidade na avaliação das contas. O problema é convencer os TCEs

Modelo em xeque
Sem dar o braço a torcer, governadores também estão no sufoco. Eles recorreram a Dilma, mas como pedir dinheiro a quem já não financia nem mesmo a educação?

Marcos Meirelles
Jornalista, escreve neste espaço aos domingos

Os novos cavaleiros do Apocalipse

O economista e filósofo Eduardo Gianetti criticou há uma semana, durante a Flip, nossa obsessão recente pelo passado. Não conseguimos prospectar ideias e encarar o Brasil como possibilidade concreta e positiva de Nação. Nossas lideranças estão sempre mirando experiências cujo sucesso sempre esteve aprisionado às amarras da temporalidade.
Gianetti foi um dos mentores intelectuais da candidatura de Marina Silva à Presidência, em 2014. O tema de sua palestra na Flip passou ao largo do dramalhão político que vivemos no momento, tratou-se de um debate instigante e inusitado com o neurocientista Sidarta Ribeiro sobre condição humana, autoconhecimento e neuro-ciência.
Mesmo assim, aqui e acolá, Gianetti fez com que a plateia refletisse um pouco mais sobre essa onda de desesperança que nos acomete. E, citando Wittgenstein, voltou a ressaltar os limites do ciência e da doutrina. “Mesmo que todas as questões científicas possíveis sejam respondidas, os problemas da vida ainda não terão sido sequer tocados”.
Nossos cavaleiros do apocalipse não estão preocupados com questões de ordem filosófica ou existencial. O que lhes importa é pregar o fracasso do país, a devassidão dos corruptos, o triunfo do mal, a imposição inexorável da barbárie à civilização. É preciso destruir, estabelecer a política da terra arrasada, matar em nós a nossa última gota de esperança para que, enfim, todos sejamos convencidos de que há uma única verdade e ela triunfará.
São muitos os senhores do nosso apocalipse e cada um defende a terra arrasada a seu modo. A corrente mais forte, no momento, é aquela que tripudia sobre o cadáver insepulto do governo Dilma. O PSDB se assanha, não vê a hora de reassumir o comando do país. Aécio quer Cunha temporariamente na Presidência e eleição em três meses. Serra sonha em virar primeiro-ministro de Temer (quiçá um novo FHC). Preso ao governo paulista, Alckmin tenta frear o impulso dos camaradas, temendo ser atropelado pelo cavalo encilhado.
Três projetos de poder e nenhum. O PSDB está preso ao retrovisor, assim como o PT.
Para os tucanos, o mundo ideal é o retorno à glória do Plano Real. Para os petistas, é o lastro social do primeiro mandato de Lula. Essa falsa nostalgia, esse sentimento de perda do que foi só posse circunstancial, em seu devido contexto histórico, nos assoma em todos os campos, do futebol à música, do teatro à TV.
Analisando o 18 Brumário de Luís Bonaparte, Marx disse que os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem. “Não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado.”
Nossas lideranças acreditam que só a vingança irá nos redimir. Não creio que o brasileiro médio seja o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda.
Somos a materialização tardia de sociedade escravagista e da barbárie dos sertões de Rosa e Euclides.
Essa violência fundadora, no entanto, pode se transformar em ferramenta de libertação, como já ensinou Nietzsche.

Tiro no escuro
No embolado quadro pré-eleitoral de São José dos Campos, a terceira via cuida de semear mais confusão. O grupo agora aposta no lançamento de Dario Rais Lopes à prefeitura.

Criatura petista
Carlinhos trata Shakespeare Carvalho como o seu maior inimigo. Mas quem foi que deu guarida política para Shakespeare e o transformou em líder do governo?

Sinal vermelho
As prefeituras que não ajustaram suas finanças ao cenário de crise econômica correm o risco de chegar ao fim do ano com pires nas mãos. No Vale, o cenário é desolador

Marcos Meirelles
Jornalista, escreve neste espaço aos domingos

O jogo de cena das PPPs em São José

Os papéis estão, mais uma vez, aparentemente trocados no embate entre a prefeitura e a direção da Câmara de São José.
De um lado, o prefeito Carlinhos Almeida (PT) tenta aprovar um projeto de PPP (Parceria Público-Privada) para financiar investimentos em infraestrutura no município. De outro, a oposição se queixa da falta de transparência da proposta e teme que a PPP signifique a privatização do patrimônio público.
Como explicar petistas defendendo com unhas e dentes a adoção das PPPs, já que, em seu DNA, o partido sempre rejeitou o protagonismo da iniciativa privada?
Como explicar tucanos e aliados se opondo às parcerias já que o excesso de intervencionismo do Estado na economia sempre foi alvo de críticas do PSDB?
Se julgarmos só pelas aparências, podemos concluir que o mundo político de São José virou de ponta-cabeça.
Tem aliado do prefeito defendendo o uso das PPPs para ressuscitar a obra da arena de esportes que Carlinhos julgou por bem transformar em paliteiro abandonado na zona oeste. Tem adversário do PT preocupado o futuro do Instituto de Previdência do Servidor, temendo que ele seja transformado pelo projeto em fundo garantidor das parcerias.
E por aí vai: os aliados de Carlinhos defendem que a PPP seja utilizada para “resolver a questão do lixo” em São José, dois anos e seis meses depois de o governo ter abandonado o estudo encomendado pela administração anterior a uma consultoria ligada ao BNDES, sugerindo a instalação de uma unidade de recuperação energética no município.
Já a oposição clama pela realização de uma audiência pública sobre as PPPs, quando passou anos no governo ignorando as demandas da oposição por mais transparência na definição de processos como a própria termelétrica do lixo.
Quer mais? Até o velho e abandonado Teatrão e o aeroporto entraram na rota do genérico discurso governista em defesa das PPPs, como se as parcerias com a iniciativa privada tivessem o poder miraculoso de desfazer décadas de equívocos de planejamento e gestão.
Para entender melhor o embate político em torno das PPPs em São José, no entanto, é preciso deixar de lado a realidade da falta de recursos para investimentos em infraestrutura no município.
O que o prefeito Carlinhos tenta, desesperadamente, é criar uma marca para restituir ao seu governo alguma capacidade de iniciativa política positiva. O que a oposição pretende é travar mais queda de braço com o prefeito, para manter o governo nas cordas. A antecipação do debate sucessório em São José, disparada pela crise dos kits e o fracasso das candidaturas governistas em 2014, não tem feito bem à cidade. Mas como convencer os políticos que disputa árida em torno de PPPs é como pregar no deserto em javanês?
E como esse jogo termina? Duas hipóteses. O placar mais evidente é uma disputa nos pênaltis entre governo e oposição. O resultado mais dramático não aparece na tribuna da Câmara: 7 a 1, goleada dos interesses políticos sobre os reais interesses da população.

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